Tóxicos invisíveis: vestígios de mercúrio e pesticidas proibidos encontrados nas penas das cegonhas.

Pesticidas proibidos há décadas, como o DDT, e metais pesados como o mercúrio, foram encontrados nas penas de cegonhas brancas que nidificam na Galiza, Espanha. Através de um projeto liderado por pesquisadoras da Universidade de Santiago de Compostela, foi analisado o impacto de contaminantes invisíveis em estas aves que percorrem os campos agrícolas em busca de alimento.

O estudo foi centrado em penas e egagrópilas recolhidas em 23 ninhos distribuídos em 10 localidades galegas. Foram detetados 11 pesticidas diferentes, sete deles já proibidos pela sua persistência no meio ambiente. A maioria dos tóxicos encontrados, 83,3%, corresponde a produtos que já estão fora de uso legal, o que demonstra a sua alta estabilidade nos ecossistemas.

Também foram identificados resíduos de herbicidas como o atrazina —proibida na União Europeia desde 2004— e compostos altamente tóxicos como o DDT ou a dieldrina, ainda presentes em baixas concentrações. A acumulação é preocupante, pois podem reativar-se e voltar a entrar nas redes tróficas através da remoção do solo ou da circulação atmosférica.

Encontraram resíduos de mercúrio e pesticidas em penas de cegonhas. Foto: Pixabay. Encontraram resíduos de mercúrio e pesticidas em penas de cegonhas. Foto: Pixabay.

O campo como espelho da contaminação ambiental

Uma das conclusões mais marcantes é que os contaminantes variam conforme o tipo de cultivo. Em zonas de batatas ou milho, as cegonhas apresentavam um perfil químico diferente do de outras regiões com pecuária ou hortas. Isso sugere uma estreita relação entre o uso do solo, a produção agrícola e a exposição da fauna silvestre a substâncias perigosas.

O estudo demonstra que as cegonhas, ao deslocarem-se e alimentarem-se em diferentes ambientes rurais, tornam-se excelentes indicadores biológicos. Não apenas mostram os efeitos dos plásticos que já foram encontrados nos seus ninhos e trato digestivo, mas agora também revelam a persistência de substâncias invisíveis que permanecem ativas nos solos e no ar.

Em algumas áreas, como Monforte de Lemos e Maceda, foram registados até sete pesticidas proibidos diferentes, o que gera preocupação sobre possíveis usos não autorizados. Por sua vez, o mercúrio foi detetado com maior frequência em regiões com agricultura intensiva, diminuindo em zonas com pecuária tradicional.

As cegonhas como exemplo do dano ambiental

Estas aves não são apenas testemunhas de um problema ambiental silencioso, mas também permitem traçar um mapa de contaminação histórica em ambientes rurais afastados de focos industriais. Através da análise das suas penas, as pesquisadoras conseguiram tornar visível o que até agora estava oculto sob a aparência natural dos campos.

Compreender a persistência destes tóxicos e os efeitos sobre a fauna silvestre é crucial para desenvolver políticas ambientais mais eficazes. A pesquisa destaca a necessidade de fortalecer a monitorização do uso de pesticidas e promover práticas agrícolas responsáveis que protejam tanto as espécies nativas como os ecossistemas onde habitam.

Cegonha. Foto: Pixabay. Cegonha. Foto: Pixabay.

As consequências do uso de pesticidas

O uso de pesticidas em campos agrícolas pode ter efeitos devastadores sobre a fauna silvestre. Estas substâncias, projetadas para eliminar pragas, não distinguem entre espécies-alvo e outras que habitam ou se alimentam nesses mesmos ambientes, afetando insetos polinizadores, aves, anfíbios e mamíferos.

As toxinas podem acumular-se no organismo dos animais, especialmente nos que estão no topo da cadeia alimentar. Isso não apenas provoca alterações na sua saúde —como problemas reprodutivos ou neurológicos—, mas também pode colocar em risco a sobrevivência de espécies vulneráveis.

Além disso, os resíduos químicos que permanecem no solo ou na água afetam indiretamente habitats completos, alterando o equilíbrio ecológico. Neste contexto, a exposição constante a pesticidas ameaça a biodiversidade e reduz a resiliência dos ecossistemas face às mudanças climáticas e outras perturbações humanas.

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