Uma equipe multidisciplinar conseguiu identificar nas costas de Chubut uma nova espécie de tartaruga marinha pré-histórica.
O espécime, batizado como Helianthochelys redondita, viveu há aproximadamente 20 milhões de anos. Foi encontrado a cerca de 40 quilômetros de Trelew, no âmbito de uma campanha paleontológica liderada pelo CONICET-CENPAT.
A descoberta é fundamental para compreender a evolução das tartarugas marinhas e as mudanças morfológicas que experimentaram ao longo de milhões de anos.
O fóssil inclui um casco quase completo, fragmentos de crânio e restos pós-cranianos, o que o torna um dos registros mais austrais e melhor conservados do linhagem dermoquélida.
Helianthochelys redondita: nome, morfologia e contexto evolutivo
O nome genérico vem dos termos gregos helios (sol) e anthos (flor), em alusão à disposição dos osículos do casco, que lembram um girassol. O epíteto redondita refere-se à Estância La Redonda Chica, local onde os restos foram encontrados.
“Esta espécie pertence à família dos dermoquélidos, o mesmo grupo que inclui a atual tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea)”, explicou a paleontóloga Juliana Sterli.
O espécime teria alcançado dimensões semelhantes às tartarugas-de-couro modernas, com um casco de mais de 2 metros de comprimento. Os dermoquélidos atuais são excelentes mergulhadoras, capazes de se submergir a mais de 2.000 metros, se alimentar de águas-vivas e manter uma temperatura corporal superior à água circundante, fenômeno conhecido como gigantotermia.
“Provavelmente esta tartaruga fóssil compartilhava hábitos semelhantes”, acrescentou Sterli. Naquele período, entre os 23 e 13 milhões de anos atrás, o clima nessas latitudes era mais quente, e existem registros que indicam a presença de dermoquélidos até na Antártida.

Campanha paleontológica, resgate e traslado do fóssil
O espécime foi descoberto em 2016, na borda de um cânion profundo próximo à linha costeira, a quase 2 km da estrada mais próxima. Em 2017, especialistas do Museo Egidio Feruglio (MEF) protegeram os restos com um bloco de gesso, devido ao risco de erosão e exposição.
A extração foi adiada por vários anos devido a dificuldades logísticas e à pandemia. Em 2021, começou o traslado definitivo. Para mover o bloco —pesado e em terreno hostil—, os técnicos do MEF projetaram um veículo especial chamado “tortumóvil”, adaptável como trenó ou maca com rodas.
“A cada dia avançávamos entre 100 e 300 metros, em grupos de seis pessoas”, relatou Sterli. Em 2024, foi construída uma estrada para arrastar o tortumóvil com maquinaria e finalmente erguê-lo com tripé até uma caminhonete. Após quase uma década, a tartaruga recebeu seu nome oficial.
Trabalho colaborativo e valor institucional
O fóssil, agora em exibição no MEF, é fruto do esforço de mais de 30 pessoas, incluindo a proprietária do campo Ana María Aguirre, trabalhadores rurais, voluntários, técnicos e pesquisadores do MEF e do CONICET-CENPAT. O projeto foi possível graças ao apoio da Agência Nacional de Promoção Científica e Tecnológica, do CONICET e do MEF.
A equipe de pesquisa foi composta por Juliana Sterli e Evangelos Vlachos (CONICET–MEF), José Ignacio Cuitiño (CONICET-CENPAT), Ignacio A. Cerda (CONICET–UNRN, Instituto de Investigaciones en Paleobiología y Geología, Museo Provincial Carlos Ameghino, Cipolletti) e Mónica Romina Buono (CONICET-CENPAT).



