A poucos dias das eleições, a discussão sobre a produção intensiva de salmões voltou ao centro da cena em Tierra del Fuego, após o avanço de projetos que buscam modificar a Lei Provincial 1355, que atualmente proíbe a salmonicultura em águas jurisdicionais.
O candidato a senador pelo espaço Defendamos TDF, Gastón Díaz, denunciou que se tenta aprovar a reforma “sem debate nem participação cidadã”.
“Quando foi sancionada a 1355, mais de 70 instituições passaram pela comissão. Não pode ser modificada entre galos e meia-noite”, advertiu Díaz.
A Lei 1355: uma conquista ambiental em risco
Sancionada em 2021, a Lei 1355 proíbe o cultivo de salmões no mar fueguino para preservar os ecossistemas costeiros. A norma foi produto de um processo participativo inédito, com contribuições de organizações científicas, ambientais e comunitárias.
No entanto, em uma reunião conjunta de comissões, foi dado parecer ao projeto impulsionado pelo Executivo provincial e o bloco de La Libertad Avanza, com apoio de Fuerza Patria, para habilitar a salmonicultura em terra e em zonas marítimas, excluindo o Canal Beagle por seu valor turístico.

Argumentos a favor: desenvolvimento econômico e emprego
Aqueles que promovem a modificação sustentam que a salmonicultura poderia:
- Gerar receitas fiscais mediante a zonificação de áreas produtivas
- Criar emprego direto e indireto, embora a produção intensiva exija pouca mão de obra
- Impulsionar exportações, citando o modelo chileno como exemplo de crescimento
Argumentos contra: impacto ambiental e precariedade laboral
Os opositores alertam que a salmonicultura:
- Contamina o ambiente marinho com resíduos orgânicos, químicos e antibióticos
- Propaga doenças e parasitas, afetando a fauna nativa
- Gera mortalidade incidental de espécies como leões-marinhos e golfinhos
- Introduz espécies invasoras que alteram o equilíbrio ecológico
- Prejudica o turismo e a pesca artesanal, atividades chave na economia local
- Oferece empregos precários, com baixa demanda de mão de obra qualificada
Ecossistemas fueguinos: patrimônio natural em perigo
O recente encalhe de orcas no Atlântico Sul voltou a evidenciar a fragilidade dos ecossistemas marinhos. As águas fueguinas se caracterizam por sua amplitude de marés, o que as torna zonas sensíveis e de alta biodiversidade.
“Nossa província tem geleiras, pântanos, mares e turfeiras únicas. Na Europa já se extinguiram”, destacou Díaz.
Desenvolvimento com sustentabilidade: o chamado a um debate sério
Desde o espaço Defendamos TDF, propõe-se um debate profundo e consensual, com participação de instituições científicas, comunidades locais e atores ambientais.
“O desenvolvimento econômico deve ser planejado, ordenado e com perspectiva de sustentabilidade. Os principais beneficiários têm que ser os fueguinos, não interesses externos”, afirmou Díaz.
O que está em jogo?
A salmonicultura representa um modelo de produção intensiva que pode comprometer a saúde dos ecossistemas e repetir erros do passado se implementada sem controle nem participação.
A licença social e o diálogo intersetorial são fundamentais para definir o rumo do desenvolvimento em uma província que abriga um dos ambientes mais excepcionais do planeta.



