O Parque Provincial Ischigualasto, em San Juan, Argentina, conhecido popularmente como “Vale da Lua”, celebra um aumento de visitantes após se tornar cenário do lançamento mundial do último disco do Coldplay.
A banda britânica escolheu a emblemática geoforma do Cogumelo para realizar um mapping durante a apresentação de Moon Music, o que atraiu a atenção internacional para este local declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
História e descoberta de fósseis
Antes de que seu valor paleontológico fosse revelado, os moradores locais já reconheciam a singularidade do lugar. Na pequena localidade de Baldecitos, o guia Victorino Herrera foi fundamental para a descoberta que mudaria a história do parque.
Em 1959, uma equipe da Universidade Nacional de Tucumán, financiada pelo recém-criado CONICET, chegou a Ischigualasto em busca de fósseis. Herrera os guiou até os restos de um dinossauro primitivo, batizado em sua homenagem como Herrerasaurus ischigualastensis, que habitou estas terras há 231 milhões de anos.
“Os dinossauros que encontramos aqui são todos mais ou menos parecidos entre si, porque são dos primeiros que existiram”, explica a pesquisadora Colombi, destacando a importância deste registro único do Período Triássico.
Um parque de escala monumental
O Parque Ischigualasto se estende por 63.000 hectares, equivalente a três vezes a cidade de Buenos Aires. Lá trabalham cerca de 90 pessoas, e em 2024 recebeu mais de 120.000 visitantes, consolidando-se como um dos principais destinos paleontológicos e turísticos da Argentina.
A formação da Cordilheira dos Andes não só expôs os fósseis, mas transformou o clima da região, bloqueando os ventos úmidos do Pacífico e criando um deserto de sombra de montanha.
“Os turistas acreditam que há pouca vida, mas há muitas espécies endêmicas adaptadas às altas temperaturas, à radiação solar e à escassa precipitação”, aponta Stella Maris Giannoni, pesquisadora do CONICET.

Valor paleontológico e científico
O Parque Ischigualasto é considerado um registro único e quase completo do Período Triássico, o que o torna um laboratório natural para estudar a origem dos dinossauros e os primeiros mamíferos.
- Registro do Triássico: sequência contínua dos três subperíodos (superior, médio e inferior).
- Evolução da vida: fósseis que ilustram a transição dos primeiros vertebrados.
- Jazidas fósseis: abundância de restos que permitem reconstruir paleoambientes.
Reconhecimento mundial
- Patrimônio da Humanidade: declarado pela UNESCO em 2000 por seu valor universal excepcional.
- Área Protegida: reconhecida pelo Governo de San Juan em 1971, principalmente por seu valor paleontológico.
Beleza geológica e paisagística
A paisagem desértica de Ischigualasto, com suas formações erodidas e cores cambiantes, lhe valeu o apelido de “Vale da Lua”. Entre suas geoformas mais emblemáticas destacam-se:
- O Cogumelo: símbolo do parque e cenário do mapping do Coldplay.
- Formações erosivas: esculturas naturais únicas criadas pela ação do vento e da água.
Desafios atuais
A descoberta de fósseis é uma corrida contra o tempo e a erosão, que ameaça destruir peças-chave da história da vida. A isso se soma o desfinanciamento da pesquisa científica na Argentina, que dificulta a continuidade de projetos paleontológicos.
As mudanças climáticas também representam um risco, alterando os ecossistemas e acelerando processos erosivos que colocam em perigo tanto os fósseis quanto a biodiversidade endêmica.
O Parque Ischigualasto é muito mais que uma atração turística: é um testemunho único da origem dos dinossauros e dos primeiros mamíferos, uma paisagem desértica de beleza incomparável e um símbolo da ciência argentina.
Seu reconhecimento internacional e sua crescente popularidade o tornam um destino imprescindível para quem busca compreender a história da Terra. No entanto, seu futuro depende da capacidade de preservar seus fósseis, proteger sua biodiversidade e sustentar a pesquisa científica que o mantém vivo como um dos principais destinos jurássicos do planeta.



