Nos altos páramos dos Andes equatorianos, os modestos lagos de montanha se revelam como atores cruciais no equilíbrio climático global.
Uma pesquisa liderada pela Universidade da Carolina do Norte e pela Universidade San Francisco de Quito demonstrou que esses corpos d’água, apesar de seu tamanho reduzido, liberam quantidades significativas de dióxido de carbono e metano.
O estudo, realizado no Parque Nacional Cayambe Coca, analisou onze lagos e um pântano durante um ano completo. Os resultados surpreenderam a comunidade científica: as emissões de alguns lagos superam as de lagos e pântanos de maior tamanho situados na mesma zona.
Esta descoberta desafia a ideia tradicional de que o impacto climático depende da extensão do corpo d’água. Os pesquisadores apontam que a temperatura, a elevação e a conexão entre solo e água são os fatores que mais influenciam na liberação de gases de efeito estufa.

Fatores que explicam as emissões dos lagos
Os lagos monitorados mostraram uma grande variabilidade nas emissões de carbono. Durante a temporada de chuvas, os valores de dióxido de carbono e metano dispararam, enquanto nos meses secos alguns lagos se reduziram ou secaram completamente.
As análises revelaram que a temperatura da água é um indicador chave do nível de metano, enquanto a elevação influencia nas concentrações de dióxido de carbono. Além disso, a interação entre as águas subterrâneas e os solos ricos em turfa favorece a liberação de carbono acumulado durante milhares de anos.
A pesquisa adverte que a exclusão desses pequenos ecossistemas nos modelos climáticos globais gera uma lacuna de informação, subestimando sua contribuição para o aquecimento global. Incorporá-los permitirá desenhar estratégias mais precisas para mitigar as emissões em regiões tropicais de montanha.
O páramo andino e seu papel no ciclo do carbono
O páramo andino, que se estende desde a Venezuela até o norte do Peru, é um dos ecossistemas mais frágeis e valiosos do planeta. Seus solos de turfa são importantes reservatórios naturais de carbono, formados pela acumulação de matéria orgânica em ambientes frios e úmidos.
No entanto, as mesmas condições que facilitam a captura de carbono também favorecem sua liberação quando o equilíbrio ambiental é alterado. A atividade humana, o aumento das temperaturas e a variabilidade hídrica estão modificando a dinâmica natural desses solos e seus corpos d’água.
Compreender o funcionamento desses sistemas é chave para avaliar com precisão o balanço de carbono global e antecipar os efeitos da mudança climática sobre os ecossistemas de alta montanha, essenciais para o fornecimento de água doce e a regulação climática regional.

Os lagos de alta montanha e seu papel ecológico
Além de seu papel nas emissões de gases, os lagos de alta montanha cumprem funções ecológicas essenciais. Atuam como reguladores hídricos, armazenando e liberando água gradualmente para os rios e pântanos das zonas baixas.
Esses pequenos corpos d’água são também refúgio de espécies únicas adaptadas a condições extremas. Neles habitam anfíbios, insetos e plantas aquáticas que fazem parte de cadeias tróficas complexas e mantêm a biodiversidade do páramo.
Além disso, os lagos contribuem para filtrar sedimentos e nutrientes, favorecendo a qualidade da água que alimenta comunidades humanas e ecossistemas adjacentes. Sua preservação, portanto, não é apenas uma questão científica, mas também uma prioridade ecológica e social.
Ciência e conservação para um futuro sustentável
A descoberta do impacto dos lagos de alta montanha redefine a forma como a ciência entende o ciclo do carbono em regiões tropicais. Reconhecer sua importância permitirá melhorar as políticas de conservação e gestão da água, assim como as estratégias globais de mitigação climática.
Os páramos, considerados “fábricas de água” por sua capacidade de reter umidade e gerar caudais, enfrentam uma pressão crescente pela mudança climática e as atividades humanas. Protegê-los é essencial para manter o equilíbrio ambiental e garantir o bem-estar de milhões de pessoas que dependem de seus recursos.
Neste contexto, cada lago, por pequeno que pareça, se torna uma peça vital do quebra-cabeça climático global, lembrando que as grandes mudanças ambientais podem ter sua origem nos ecossistemas mais discretos do planeta.



