Uma descoberta acidental de pesquisadores da Universidade de Michigan abre novas possibilidades para a extração de lítio em salmouras consideradas até agora “de baixa qualidade”, com alto teor de magnésio.
A descoberta permite separar lítio sem necessidade de processos intensivos em água ou energia, o que poderia transformar a forma como se obtém este recurso chave para a transição energética.
O problema do lítio e do magnésio
- O lítio é obtido principalmente de rocha dura e salmouras concentradas, ambas com alto impacto ambiental.
- A mineração de rocha implica grandes movimentos de terra e risco de contaminação de aquíferos.
- As salmouras requerem extensos tanques de evaporação solar, com consumo massivo de água e tempo.
- O magnésio, quimicamente similar ao lítio mas com maior carga, dificulta os processos tradicionais. Em salmouras com proporção de seis para um em relação ao lítio, a separação torna-se cara e poluente.
O novo método
O sistema desenvolvido rompe com essa lógica:
- Não utiliza eletricidade nem pressão externa.
- Baseia-se em uma membrana com carga negativa, com salmoura de um lado e água pura do outro.
- Surpreendentemente, o lítio atravessa a membrana antes do magnésio, contrário ao esperado pela teoria clássica.
- O fenômeno foi descoberto durante experimentos de controle em eletrodiálise e repetiu-se em diferentes condições com resultados consistentes.
A explicação está no equilíbrio de cargas: os cloretos cruzam a membrana em direção à água pura e o lítio os acompanha para manter a neutralidade elétrica, enquanto o magnésio fica preso compensando as cargas negativas da membrana.

Vantagens ambientais
- Reduz drasticamente a necessidade de evaporação.
- Redistribui a água em vez de eliminá-la, diminuindo o consumo hídrico.
- Gera menos salmouras residuais concentradas.
- Funciona mesmo com altas salinidades, onde outras tecnologias falham.
Essa abordagem poderia aliviar tensões em regiões áridas como os salares sul-americanos, onde o uso intensivo de água afeta comunidades e ecossistemas.
Limitações e combinações possíveis
- O sistema não separa lítio de outros íons monovalentes como o sódio.
- Pode ser combinado com adsorventes seletivos, etapas de evaporação mais curtas ou reações químicas específicas para precipitar lítio.
- A pesquisa avança em direção a análises tecnoeconômicas reais, para definir quais combinações funcionam melhor fora do laboratório.
Implicações para a transição energética
- Permite pensar em uma extração de lítio mais distribuída e local, menos concentrada em alguns poucos salares icônicos.
- Facilita projetos de menor escala, com menor pegada hídrica e química.
- A médio prazo, poderia integrar-se em estratégias de economia circular da água industrial, onde as salmouras sejam consideradas recurso e não resíduo.
- A longo prazo, reforça a ideia de que a transição energética deve evitar reproduzir os erros extrativos do passado.
A descoberta da Universidade de Michigan não promete milagres, mas oferece uma melhoria concreta e realista para a extração de lítio. Ao abrir a porta para aproveitar salmouras descartadas, reduz impactos ambientais e amplia as opções para um recurso essencial em baterias e tecnologias limpas.



