A União Europeia (UE) implementou uma nova normativa para proteger as florestas americanas que exclui a participação direta das comunidades indígenas. Esta legislação, confirmada em dezembro, busca impedir a comercialização de produtos agrícolas como carne, cacau e café provenientes de terras desmatadas após 2020.
Normativa da UE para proteger florestas americanas
Segundo a ONU, entre 1990 e 2020, o desmatamento global resultou na perda de 420 milhões de hectares de florestas, uma cifra superior ao tamanho da própria UE. A agricultura é a principal responsável por esta devastação ambiental.
O objetivo da lei é reduzir o desmatamento a nível mundial, explica Alain Karsenty do Centro Francês de Pesquisa Agrícola para o Desenvolvimento Internacional. No entanto, com apenas 5% a 10% do desmatamento global atribuível ao consumo da UE, não se espera que a medida detenha o desmatamento na América Latina.
Os produtos agrícolas latino-americanos representam aproximadamente metade do desmatamento incorporado na UE, que é o segundo maior parceiro comercial do Brasil e do México, e o terceiro da Argentina, Colômbia e Peru.
Para garantir que suas importações não estejam vinculadas a práticas destrutivas, a UE exigirá um sistema de rastreabilidade que inclua a geolocalização das parcelas. Os países serão classificados de acordo com o risco de desmatamento, o que afetará as avaliações de seus fornecedores.
No entanto, este sistema poderia ser custoso para os pequenos produtores, que carecem de recursos e capacitação para adotar práticas mais sustentáveis, aponta Karsenty. Isso poderia excluí-los de mercados rentáveis, já que os compradores poderiam considerar arriscado adquirir seus produtos.
Apesar de que a norma poderia ajudar a mitigar o impacto ambiental das cadeias de suprimento, a falta de garantias em outros aspectos tem sido criticada. A Aliança Global de Comunidades Territoriais (AGCT) adverte que a lei permite aos governos ignorar direitos indígenas cruciais para combater a mudança climática e preservar a biodiversidade.
O Parlamento Europeu havia votado para respeitar os padrões internacionais de direitos da terra, mas o acordo final apenas obriga os importadores a comprovar o cumprimento dessas normas quando reconhecidas pelos países produtores.
A ONG Fern destaca que a falta de inclusão indígena poderia ter consequências graves, como se viu no Brasil sob a administração de Bolsonaro, onde os direitos indígenas foram atacados e o desmatamento da Amazônia se acelerou.
Fany Kuiru, advogada do povo Uitoto, enfatiza que os indígenas são os principais guardiões das florestas e os mais prejudicados pelo desmatamento impulsionado pela agricultura intensiva. Critica que a normativa foi desenhada sem considerar a realidade desses territórios.
O caso Casino, onde indígenas da Colômbia e do Brasil processaram um supermercado francês por danos ambientais, exemplifica esta problemática. Karsenty sugere que, em vez de um boicote, segmentem-se as tarifas de importação segundo o impacto ambiental dos produtos.
A AGCT insiste que a UE deve colaborar com os países exportadores para tratar as causas raiz do desmatamento, como a fraca governança e as disputas de terras. Propõe que a UE cofinancie programas para ajudar os agricultores a adotar práticas mais sustentáveis, o que poderia deter a expansão destrutiva da agricultura.



