O cheiro de terra molhada é inconfundível e desperta algo em todos os seres humanos. Mas por que gostamos tanto desse cheiro? Provavelmente, porque é mais do que um perfume: é o aroma da **diversidade dos solos** “ativos”, com **matéria orgânica, férteis e cheios de vida**.
Esse cheiro, o de um [solo biologicamente saudável](https://noticiasambientales.com/ciencia/recuperacion-de-suelos-contaminados-alianza-entre-el-inta-y-expertos-europeos/), é fruto da **geosmina**, um composto produzido por certas bactérias. Mesmo com nossa limitada **sensibilidade olfativa**, poderíamos perceber seu aroma se uma única colher de geosmina se dissolvesse em 200 piscinas olímpicas.
## A importância da diversidade dos solos saudáveis
Embora muitas vezes os imaginemos como simples punhados de **terra inerte**, nos solos saudáveis habitam milhões de organismos. Apenas alguns gramas de solo podem conter uma **grande biodiversidade**, incluindo fungos, bactérias, animais, plantas e muito mais. Na verdade, os solos abrigam mais da metade de todas as espécies do planeta.
A interação entre esses organismos, seus **resíduos e os minerais** do solo resulta na matéria orgânica, o material que sustenta os múltiplos **benefícios do solo** para as pessoas.
A matéria orgânica permite o crescimento das plantas e nos fornece alimento, além de contribuir para a estrutura do solo e **regular os fluxos de água**, facilitando a infiltração da chuva e evitando que os rios sequem durante as **estações secas**.
Além disso, a matéria orgânica possui mais carbono do que a atmosfera e toda a vegetação do mundo combinadas. Por isso, formar nova matéria orgânica é uma [estratégia chave para combater as mudanças climáticas](https://noticiasambientales.com/medio-ambiente/cop30-brasil-llamado-a-liderar-la-lucha-contra-el-cambio-climatico-y-eliminar-combustibles-fosiles/).
O **carbono da atmosfera** que a matéria orgânica incorpora ao solo pode ficar retido lá por centenas ou milhares de anos e mitigar as mudanças climáticas. No entanto, se essa matéria orgânica for perdida, seu carbono é liberado no ar e contribui para as mudanças climáticas.
Desde os primórdios da agricultura, cerca de 12.000 anos atrás, a **atividade humana** tem afetado, muitas vezes negativamente, os solos e sua matéria orgânica. Atualmente, a matéria orgânica do solo de quase todos os cantos do planeta diminuiu como resultado do **desmatamento**, da expansão de terras agrícolas, das práticas agrícolas e dos desenvolvimentos urbanos.
Essas transformações resultaram na perda de aproximadamente 116 bilhões de toneladas de carbono do solo em escala global, uma quantidade equivalente às **emissões de dióxido de carbono** que o mundo produz ao longo de 10 anos.
## Estratégias para recuperar a matéria orgânica
A América Latina não é uma exceção a esse padrão. Na região, foram registradas **perdas de matéria orgânica** que variam entre 5 e 15% em média. No entanto, áreas naturais que foram transformadas para a **produção agrícola ou pecuária** intensiva mostram perdas mais drásticas, entre 40 e 75%. Este é o caso, por exemplo, da Mata Atlântica e de certas áreas do Cerrado e Amazônia no Brasil, do Chaco e das Pampas na Argentina (e do Paraguai e Uruguai, respectivamente), ou das regiões Andinas e do Orinoco na Colômbia.
Mas como podemos recuperar a matéria orgânica perdida? Para responder a essa pergunta, primeiro precisamos entender como ela se forma. Até alguns anos atrás, acreditávamos que a matéria orgânica era formada principalmente por substâncias muito complexas.
Hoje sabemos que ela é composta tanto por **substâncias simples**, de rápida decomposição (como folhas macias e raízes finas), quanto por **substâncias complexas**, de decomposição lenta (como folhas duras, madeira e raízes grossas).
As substâncias simples podem se decompor e liberar seus nutrientes em questão de meses, mas parte delas também pode se unir a pequenos **minerais do solo**, ficando presa por milênios. Assim, as substâncias simples fornecem nutrientes e estabilidade a curto e longo prazo. Por outro lado, as substâncias complexas, por não estarem presas nos minerais do solo, se decompõem em questão de anos ou décadas, fornecendo **nutrientes e estrutura ao solo** a médio prazo.
Para recuperar a matéria orgânica perdida e ter solos saudáveis e férteis, precisamos incorporar ao solo materiais diversos, tanto de decomposição lenta quanto rápida. Isso implica uma mudança em alguns **paradigmas de manejo agrícola** e, em particular, repensar a agricultura onde predominam um ou alguns poucos cultivos. Até apenas alguns séculos atrás, os agricultores cultivavam várias espécies em suas parcelas.
Desde meados do século XX, a maior parte da produção se especializou em **monoculturas** (cultivos de uma única espécie, como soja, trigo ou milho). Esse modelo de agricultura busca uma **maior eficiência e rentabilidade**, mas para isso consome dos solos muito mais matéria orgânica (e seus nutrientes) do que incorpora. Como resultado, muitos solos ficaram sem capacidade de produzir alimentos ou apenas puderam fazê-lo através do uso de fertilizantes, herbicidas e outros insumos, porque perderam a matéria orgânica que os tornava **férteis e estáveis**.
## Práticas tradicionais aplicadas ao solo
Em resposta a essa problemática, nas últimas décadas, práticas tradicionais foram recuperadas e valorizadas, integrando-as à ciência moderna. Este é o caso da **agroecologia**, da **agrofloresta** e do **uso de cultivos de cobertura**. Essas práticas permitem que os solos recebam material orgânico e raízes de diferentes espécies, alimentando comunidades de organismos do solo mais abundantes e diversas, formando matéria orgânica diversificada.
Essas práticas também protegem os solos da erosão e da insolação ao mantê-los cobertos com vegetação e, com isso, também os protegem dos desafios das mudanças climáticas, principalmente diante de **temperaturas, chuvas e secas extremas**.
Por exemplo, na Amazônia colombiana, o cultivo de cacau integrado com o cultivo de árvores frutíferas e espécies da floresta nativa não apenas mantém os solos mais férteis, mas também pode ser usada como uma estratégia para melhorar em até 40% múltiplas funções dos solos degradados de pastagens.
Já nos sistemas montanhosos da América Latina em geral, a agrofloresta, além de conservar a matéria orgânica do solo, contribui para a **conservação da biodiversidade de animais e plantas** da região e, ao mesmo tempo, permite sustentar os modos de vida dos produtores locais. Mesmo na região dos pampas no sul da América Latina, onde predominam monoculturas como a soja, a incorporação de **cultivos de cobertura** como a aveia permitiria começar a recuperar a perda de matéria orgânica causada pelas monoculturas.
Os solos são a base silenciosa de nossas sociedades e definem nossas culturas. Sua fertilidade nos alimenta, e sua estabilidade nos protege. Mais do que um recurso, os solos são um reflexo de **nossa relação com a natureza**. Entender seu funcionamento, especialmente o papel essencial da matéria orgânica e dos organismos que a compõem, é fundamental para **repensar como gerenciamos os ecossistemas**. Somente assim garantiremos que os solos continuem sendo uma fonte de diversidade, vida e bem