A humanidade tem apenas três anos para conter o aquecimento global, advertência séria de mais de 60 cientistas.

Um novo relatório internacional adverte que, ao ritmo atual de emissões de dióxido de carbono, a humanidade esgotará em apenas três anos seu orçamento de carbono restante para frear que o aquecimento global ultrapasse o limiar crítico de 1,5 °C sobre os níveis pré-industriais.

A conclusão surge do terceiro relatório anual Indicadores da Mudança Climática Global, elaborado por um consórcio de mais de 60 cientistas de 17 países e publicado na revista Earth System Science Data. O estudo atualiza os principais indicadores climáticos do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), e oferece novas projeções sobre o ritmo de aquecimento e a influência direta das atividades humanas.

Um relógio climático em contagem regressiva

  • O orçamento de carbono —a quantidade de CO₂ que ainda pode ser emitida sem ultrapassar os 1,5 °C— era estimado em 500 gigatoneladas em 2020.
  • Em 2024, a cifra diminuiu para 130 gigatoneladas, o que representa pouco mais de três anos de emissões ao ritmo atual.
  • O orçamento para os 1,6 °C ou 1,7 °C poderia ser ultrapassado em menos de uma década.

“A janela para manter-se dentro do objetivo de 1,5 °C está se fechando rapidamente”, advertiu Joeri Rogelj, diretor do Instituto Grantham do Imperial College London.

Quase 90% do aquecimento é causado pelo ser humano

Segundo o relatório, a temperatura global média em 2023 foi 1,52 °C superior aos níveis pré-industriais, dos quais 1,36 °C são atribuíveis a atividades humanas, principalmente pela queima de combustíveis fósseis e desflorestação.

Embora uma anomalia anual não implique automaticamente a violação do Acordo de Paris, o registro evidencia a rapidez com que se encurta a margem de ação.

Entre 2015 e 2024, a temperatura global média permaneceu 1,24 °C acima dos níveis pré-industriais, com 53 gigatoneladas de CO₂ emitidas anualmente.

Outros sinais do desequilíbrio planetário

O estudo também identificou aumentos sustentados de gases de efeito estufa como CO₂, metano e óxidos de nitrogênio, bem como um desequilíbrio energético crescente no sistema climático.

Entre 2019 e 2024, o nível médio do mar subiu 26 mm, duplicando a taxa histórica registrada desde o início do século XX.

O apelo à ação: energia limpa e coerência política

Os autores apontam que enquanto a União Europeia analisa suavizar suas metas de redução de emissões para 2040, o relatório reforça a urgência de não retroceder nos compromissos climáticos.

“Até que não mudemos para energias limpas e práticas sustentáveis no uso do solo, as concentrações de gases de efeito estufa continuarão aumentando”, advertiu William Lamb, do Instituto Potsdam para a Pesquisa do Impacto Climático.

“A Europa deve liderar a descarbonização global. Agora não é momento de hesitar”, concluiu Chris Smith, pesquisador da Universidade Livre de Bruxelas.

O tempo está se esgotando, mas ainda é possível conter o aquecimento global

O relatório funciona como um termômetro global e um roteiro científico.

Se medidas ambiciosas forem tomadas agora —com cortes drásticos nas emissões, transição energética urgente e fortalecimento de políticas climáticas— é possível limitar os danos e proteger milhões de pessoas dos impactos mais severos das mudanças climáticas.

Foto de capa: Marek Piwnicki

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