Há muitas questões que, ao lidar com o planeta, são difíceis de precisar. Um exemplo é a qualidade do vínculo entre as sociedades e a natureza.
Nesse sentido, um documento internacional, publicado esta semana na prestigiosa revista Nature, chega para trazer luz ao assunto. O projeto foi liderado por cientistas da Universidade de Oxford (Reino Unido), e contou com a participação da pesquisadora do CONICET Sandra Díaz.
Propõe-se a criação de um Índice de Relações com a Natureza (NRI) que forneça parâmetros para essas medições.
Como é o índice que medirá o vínculo entre sociedades e natureza
Trata-se de uma métrica global projetada para complementar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e captar a qualidade da relação de uma nação com a natureza.
O novo indicador será incorporado ao Relatório de Desenvolvimento Humano 2026 elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O objetivo a longo prazo é que haja atualizações periódicas por país, assim como ocorre com o IDH.
O diretor do escritório responsável por este relatório, Pedro Conceição, também é um dos autores do documento.
“A ideia é monitorar como os países estão melhorando sua relação com o mundo vivo”, considerou.
Como medir a relação das sociedades com a natureza.
“Hoje em dia, ao considerar a situação geral de um país, não se leva em conta apenas o tamanho da economia (geralmente medido através do produto interno bruto), mas também aspectos fundamentais do bem-estar humano, como o nível de educação, expectativa de vida e necessidades básicas atendidas”, acrescentou.
“Até agora, não existia um índice que refletisse como uma nação se relaciona com o restante dos seres vivos”, destaca Díaz, pesquisadora do CONICET no Instituto Multidisciplinario de Biología Vegetal (IMBIV, CONICET-UNC).
Como é composto o NRI
O NRI contempla três dimensões centrais:
- A prosperidade e acessibilidade da natureza, medida pela extensão e acesso aos espaços naturais;
- O uso cuidadoso da natureza, avaliado a partir da utilização dos recursos e dos impactos ambientais;
- A proteção da natureza, avaliada através da consideração dos compromissos legais e institucionais para proteger os ecossistemas.
Ou seja, o NRI busca avaliar e quantificar o grau em que os países cuidam dos ecossistemas, garantem um acesso equitativo à natureza e a protegem de possíveis danos.
Quais questões serão medidas
Isso significa que as nações que investem em espaços compartilhados para a natureza e as pessoas, em ar e água limpos e na restauração dos ecossistemas poderão ver seu NRI aumentar.
Como cada país cuida da natureza.
“É importante destacar que o NRI não reflete diretamente o estado da natureza não humana”, destaca a pesquisadora do CONICET.
“Para isso, existem muitos indicadores biológicos, como por exemplo os estabelecidos pelo Convenio sobre la Diversidad Biológica, como o número de espécies de animais ou plantas ameaçadas ou não, o tamanho das populações selvagens ou a área ocupada por ecossistemas mais ou menos naturais”, acrescenta.
“É um índice que mede o que os seres humanos fazem e não como a natureza está se saindo na nossa presença”, explica Díaz.
Segundo os especialistas, em vez de focar no que os seres humanos estão fazendo errado, a proposta é oferecer um quadro global para medir até que ponto as pessoas e a natureza prosperam juntas.
Nesse sentido, a proposta visa mudar o foco de evitar danos ambientais para promover relações positivas e ambiciosas com a natureza através de uma proposta considerada positiva e transformadora.
“Chamamos nossa abordagem de ‘aspiracional’ porque enfatizamos as capacidades humanas de fazer as coisas melhor”, afirma Díaz.
“Mudança de narrativa”
Conforme argumentam os criadores deste índice para analisar o vínculo entre sociedades e natureza, propõem uma mudança de perspectiva.
A inovação do índice.
“O que propomos é uma mudança na narrativa do dano e do fracasso ambiental para histórias e evidências de que nossas sociedades têm a capacidade de produzir um futuro melhor para toda a vida na Terra e que, em muitos aspectos, já o fizemos”, diz Erle Ellis, autor principal do estudo e professor da Universidade de Maryland Baltimore County.
“Ao ampliar o desenvolvimento humano para incluir as relações saudáveis entre as pessoas e o restante da vida na Terra, esperamos motivar novos níveis de colaboração e inovação em todo o planeta”, acrescenta o também bolsista da Oxford Martin School da Universidade de Oxford.



