Tecnologia aplicada à conservação no Peru: a inteligência artificial monitora jaguares em Tambopata

Na Reserva Nacional Tambopata, departamento de Madre de Dios, a inteligência artificial tornou-se uma ferramenta chave para estimar a densidade de jaguares.

Dois softwares especializados permitem analisar milhares de imagens capturadas por câmeras armadilha, distinguir esta espécie de outros animais e identificar cada indivíduo. O que antes demorava meses de trabalho manual agora pode ser resolvido em poucos dias.

Desde 2021, o Sernanp implementa o Programa Jaguar, em coordenação com a Associação AIDER e a SDZWA–Peru, que processa as fotografias com a ajuda da IA.

Como funciona o monitoramento

As câmeras armadilha são instaladas em pares, frente a frente, em trilhas ou caminhos onde se presume o trânsito de fauna. Cada vez que um animal passa, os sensores infravermelhos são ativados e registros são gerados de diferentes ângulos.

O processamento é realizado com dois programas:

  • Animl (Animal Machine Learning): distingue espécies com grande precisão, mesmo entre animais muito semelhantes como o ocelote e o margay.
  • Matchy Patchy: discrimina especificamente os jaguares, identificando quantos indivíduos aparecem nas imagens e diferenciando-os um a um.

Resultados obtidos

  • Primeira avaliação (2021-2022): 101 câmeras em 830 km² registraram 15 jaguares, com uma densidade estimada de 1,54 por cada 100 km². Também foram detectadas 48 espécies de mamíferos e cinco de aves.
  • Segunda avaliação (2024): 90 câmeras na mesma área registraram 20 jaguares, com uma densidade de 1,16 por cada 100 km².

Além disso, foram identificadas espécies como o veado vermelho, a anta amazônica e o cutia, o que reforça a importância do jaguar como “espécie guarda-chuva”: ao protegê-lo, também se conserva o habitat de numerosas espécies associadas.

jaguares
A IA revoluciona o estudo dos jaguares no Peru.

Ameaças atuais

Entre 2025 e 2026, a mineração ilegal desmatou cerca de 500 hectares em áreas próximas ao rio Malinowski, limite da reserva. Esta atividade, juntamente com a caça por retaliação e o tráfico ilegal de peles e presas, representa um risco crítico para a espécie.

A UICN classifica o jaguar como “Quase Ameaçado”, com uma redução populacional de 20-25% nas últimas duas décadas. O Plano Nacional de Conservação do Jaguar 2022-2031 do governo peruano o coloca na mesma categoria, alertando que pode se tornar vulnerável se as medidas de proteção não forem intensificadas.

Estratégias de conservação

O Programa Jaguar busca gerar conhecimento científico aplicado e promover projetos piloto junto com comunidades locais para reduzir interações negativas. Entre seus objetivos:

  • Prevenir a caça por retaliação.
  • Promover o ecoturismo responsável, que pode gerar renda sem comprometer a sobrevivência da espécie.
  • Fomentar a participação comunitária na conservação.

Pesquisadores como Zamalloa e Aviana registraram avistamentos e rugidos de jaguares perto do rio Malinowski, especialmente em maio e junho, época de acasalamento. Esses testemunhos reforçam o potencial do ecoturismo como ferramenta de convivência entre humanos e fauna silvestre.

A aplicação de inteligência artificial em Tambopata marca um marco na conservação do jaguar. Ao acelerar a análise de dados e melhorar a precisão dos registros, fortalece-se a capacidade de resposta frente a ameaças como o desmatamento e a caça ilegal.

A experiência peruana demonstra que a tecnologia, combinada com o compromisso comunitário e científico, pode ser um motor decisivo para garantir a sobrevivência de uma das espécies mais emblemáticas da América Latina.

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