Os lixões a céu aberto continuam a ser um dos principais passivos ambientais da Argentina.
O relatório de 2023 do programa “Estado do Ambiente”, elaborado pela Subsecretaria de Ambiente, identifica mais de 5.200 locais ilegais de disposição final de resíduos na Argentina, com uma média superior a dois por município.
O número não melhorou significativamente nos últimos anos, gerando alarme entre especialistas, como a Câmara Argentina de Tratadores e Transportadores de Resíduos Industriais e Especiais (CATRIES) e a Câmara Argentina de Indústrias de Tratamento para a Proteção Ambiental (CAITPA).
O que é um lixão a céu aberto e por que preocupa
As câmaras explicam que estes locais:
- Não possuem impermeabilização do solo
- Carência de controle de líquidos percolados ou gases contaminantes
- Recebem resíduos industriais, perigosos e patogênicos sem classificação
Ao contrário dos aterros sanitários, que são regulamentados e projetados com infraestrutura técnica (camadas impermeáveis, monitoramento de biogás, captura de líquidos), os lixões abertos violam normativas provinciais e nacionais, sem controles efetivos nem sanções adequadas.
Indústria e resíduos: uma relação informal
Um dos fatores mais graves é a baixa taxa de tratamento de resíduos industriais. Segundo o Observatório de Resíduos Perigosos, uma iniciativa conjunta entre UBA, UNR, CATRIES e CAITPA:
- Em 2024 foram geradas mais de 25 milhões de toneladas
- Apenas o 4,07 % recebeu tratamento adequado
- Há mais de 32.700 empresas geradoras, mas apenas 8,5 % contratam operadores habilitados
“96 % dos resíduos industriais terminam sem tratamento. Muitos vão parar em lixões ilegais, com impacto direto na saúde e no ambiente”, alertou Claudia Kalinec, presidente da CATRIES.
Impactos ambientais e sociais acumulativos
Os lixões abertos geram:
- Líquidos percolados contaminantes, que podem infiltrar os lençóis freáticos e afetar a água potável
- Emissões de biogás, como metano e dióxido de carbono, que contribuem para as mudanças climáticas
- Riscos sanitários e sociais para famílias que vivem perto desses locais, especialmente em bairros populares
“O problema não é a falta de normas, mas sim a ausência de aplicação. As empresas evitam os custos do tratamento legal e ninguém os sanciona”, afirmou Gustavo Solari, presidente da CAITPA.
Políticas necessárias: fiscalização, incentivos e conscientização
As câmaras propõem uma agenda ambiental que inclua:
- Fiscalização eficaz e sanções reais para quem polui
- Benefícios fiscais e acesso a créditos verdes para empresas que gerenciam adequadamente seus resíduos
- Campanhas de conscientização, tanto no âmbito empresarial quanto social
“A poluição industrial não é invisível: está na água, no ar, no solo. Se não for abordada de forma urgente e sistemática, os custos serão irreversíveis”, concluiu Solari.
A gestão de resíduos industriais deve ser integrada como eixo estrutural de qualquer política ambiental séria. Caso contrário, advertem do setor, a informalidade continuará afetando o equilíbrio ecossistêmico e a saúde pública.



