O oceano Austral está experimentando um aumento inesperado em sua salinidade que poderia desencadear na perda irreversível do gelo marinho na Antártida.
Assim revelam novos dados de satélite coletados em um estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS).
Esta mudança resulta especialmente difícil de percibir, no entanto, é fundamental entender como isso ocorre.
É que, “quando a salinidade é alta, o gelo marinho é escasso. Quando a salinidade é baixa, há mais gelo marinho“, explica Alex Haumann, cientista climático da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, Alemanha, que participou da análise.
Assim, o nível de salinidade do Oceano Austral é um ponto chave: seu aumento acima dos níveis normais interrompe o delicado equilíbrio oceânico e ameaça criar um ciclo de retroalimentação perigoso.

O delicado equilíbrio da Antártida e seu oceano
Por que uma maior salinidade do Oceano Austral ameaça o ecossistema marinho? Para entender isso, é preciso compreender como funciona seu delicado equilíbrio.
Este oceano tem um sistema de camadas estratificadas: água fria e menos salgada na superfície, e água quente e salgada nas profundezas.
Este equilíbrio marinho se mantém graças às nevascas e ao gelo marinho que fornecem água doce à camada superior.
Assim, a camada fria atua como um isolante natural que impede que a água quente das profundezas suba à superfície.
Geralmente, o gelo marinho se forma perto da costa antártica e se desloca para o norte antes de derreter no oceano aberto, mantendo assim a estratificação.
Mas, agora, o problema principal é que a água superficial salgada é demasiado quente para que se forme gelo.
Isso enfraquece a estratificação e cria correntes de convecção que trazem ainda mais água quente das profundezas, aumentando sua temperatura e gerando uma perda descontrolada de gelo.
Por que aumenta a salinidade no Oceano Austral
Embora a princípio se acreditasse que um maior descongelamento deveria liberar mais água doce na superfície, reforçando assim a estratificação, hoje ocorre o contrário: a salinidade está aumentando.
Assim explica Inga Smith, física especializada em gelo marinho da Universidade de Otago: “Com o aquecimento, esperamos que flua mais água doce para o oceano. Portanto, é bastante surpreendente que apareça esta água mais salgada na superfície”.

Alessandro Silvano, oceanógrafo da Universidade de Southampton e líder do estudo, sugere que a água quente e salgada das profundezas estaria surgindo à superfície por “uma mudança de regime, uma mudança no sistema oceânico e glacial“.
A causa mais provável são os ventos do oeste ao redor da Antártida, que se fortaleceram como consequência da mudança climática.
Esses ventos alteram as correntes e provocam que a água profunda suba.
A tecnologia que revelou o problema
Medir a salinidade oceânica na Antártida era praticamente impossível durante o inverno devido ao gelo marinho e à escuridão.
Mas, agora, os satélites da Agência Espacial Europeia (SMOS) podem observar todo o Oceano Austral com resolução de 25 quilômetros quadrados.
Haumann destacou o valor desses dados: “Devido à grande cobertura e à série temporal que você pode obter, é super valioso. É realmente uma nova ferramenta para monitorar este sistema”.
Além disso, a equipe verificou os dados de satélite com boias Argo, que coletam amostras de água até 2000 metros de profundidade.
“Mostram o mesmo sinal [que os satélites]”, confirmou Silvano. “Pensamos, de acordo, isso é real. Não é um erro”.
Assim, com a mudança do equilíbrio marinho, Haumann alertou sobre a urgência do monitoramento.
“Esta é uma das regiões mais distantes da Terra, mas uma das mais críticas para a sociedade. A maior parte do excesso de calor que temos no sistema climático vai parar nesta região”, destacou.



