O Parlamento Europeu aprovou adiar por um ano a aplicação da nova lei que busca garantir que o consumo europeu de gado, cacau, café, soja, madeira e outros produtos não gere desmatamento na origem. A medida, que deveria entrar em vigor em 30 de dezembro de 2025, será aplicada finalmente a partir de 30 de dezembro de 2026.
Com 402 votos a favor, 250 contra e 8 abstenções, o plenário do Parlamento Europeu alinhou-se com o Conselho da UE, que já havia defendido a prorrogação. É a segunda vez em um mês que os partidos de extrema-direita e o Partido Popular Europeu (PPE) unem forças para modificar normas ambientais, após também terem reduzido as exigências de sustentabilidade e responsabilidade corporativa para as empresas.
Debate político e fratura parlamentar
A votação reflete o fracasso das negociações entre populares, social-democratas, liberais e verdes para alcançar uma posição comum.
- A eurodeputada verde Marie Toussaint criticou duramente o PPE: “Seu objetivo é desmantelar o texto sobre desmatamento ao voltar a aliar-se com a extrema-direita e recusar-se a defender a proposta da Comissão”.
- Por sua vez, a negociadora democrata-cristã Christine Schneider defendeu a decisão: “Garante a prevenção efetiva do desmatamento ilegal, ao mesmo tempo que reduz encargos desnecessários para operadores, agricultores e silvicultores”.
O grupo dos Reformistas e Conservadores Europeus celebrou que se evitasse “uma situação em que milhares de empresas teriam sido empurradas para o caos jurídico e administrativo”.
Objetivos da lei contra o desmatamento
O Regulamento da União Europeia contra o Desmatamento (EUDR) busca impedir que matérias-primas e produtos derivados consumidos na UE estejam vinculados à destruição de florestas.
A normativa abrange:
- Gado e couro.
- Cacau e chocolate.
- Café.
- Óleo de palma.
- Soja.
- Madeira e móveis.
- Borracha.
As empresas deverão demonstrar, mediante sistemas de geolocalização, que suas cadeias de suprimento não geraram desmatamento nem degradação de massas florestais.

Pressões internacionais e empresariais
O texto recebeu críticas desde o início por parte de países como Brasil, Colômbia, Indonésia, Malásia e Canadá, além de setores madeireiros e pecuários. Também a administração estadunidense de Donald Trump expressou seu desacordo.
No entanto, contou com o apoio de grandes produtores de chocolate como Nestlé, Mars Wrigley e Ferrero, além da comunidade científica e organizações ambientalistas.
Antecedentes do adiamento
Em setembro de 2024, a Comissão Europeia já havia anunciado um primeiro adiamento de um ano, argumentando que as empresas não tiveram tempo para se adaptar. Em 2025 voltou a pedir outra prorrogação, desta vez por um problema informático.
Finalmente, Bruxelas propôs manter a aplicação a partir de dezembro de 2025 com algumas flexibilidades em multas e burocracia. Mas o Conselho da UE, com o voto favorável de 24 capitais, defendeu a segunda prorrogação sob o argumento da “simplificação”.
Impacto sobre PMEs e revisão futura
O Conselho estabeleceu que a normativa não se aplicará a PMEs até 30 de junho de 2027. Além disso, a Comissão Europeia deverá realizar uma revisão de simplificação em abril de 2026, para avaliar o impacto administrativo sobre pequenos e microoperadores.
Para o grupo parlamentar social-democrata, esta revisão é uma “linha vermelha”, já que introduz incerteza e poderia abrir a porta a novos adiamentos nos próximos anos.
O adiamento da lei europeia contra o desmatamento reflete a tensão entre a proteção ambiental e as pressões econômicas e políticas. Enquanto organizações ambientalistas e parte da indústria apoiam a regulamentação, setores conservadores e países exportadores questionam seu impacto.
A decisão de adiar sua aplicação até 2026 representa um revés para as políticas verdes da UE, em um contexto global onde o consumo europeu é responsável por cerca de 10% do desmatamento mundial.



