A Unesco, através do seu Comitê do Patrimônio Mundial, solicitou formalmente ao Estado argentino suspender de maneira preventiva a construção do oleoduto Vaca Muerta Sur e o terminal petrolífero em Punta Colorada (localizado no Golfo San Matías). A medida busca garantir que não ocorram danos irreversíveis sobre o ecossistema da Península Valdés.
Esta resolução foi adotada durante a 48ª sessão do organismo em Busan, Coreia do Sul. Nela, a Unesco manifestou sua firme preocupação pelos “altos riscos” que a atividade petrolífera representa para os valores naturais e ecológicos que converteram a Península Valdés em Patrimônio Mundial.
Conexão ecológica e ameaças à fauna marinha
Apesar de que o terminal portuário na província de Río Negro está projetado a cerca de 30 quilômetros fora da área protegida, o organismo advertiu que existe uma conexão ecológica direta entre ambos os territórios através do Golfo San Matías.
Entre os principais riscos ambientais identificados destacam-se:
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O aumento sustentado do trânsito de navios petroleiros.
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O risco de colisões com cetáceos e a poluição sonora submarina.
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Os efeitos da iluminação artificial e descargas na água.
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A ameaça potencial de derrames de hidrocarbonetos.
A Unesco sublinhou que a avaliação de impacto ambiental não deve se limitar unicamente à fase de construção, mas contemplar a operação permanente das instalações e o fluxo constante de embarcações. Cabe destacar que a Península Valdés é um santuário chave para a reprodução da baleia franca austral, além de abrigar orcas, golfinhos, leões e elefantes marinhos, pinguins e diversas aves costeiras.
Questionamentos à documentação apresentada pela Argentina
Embora o Governo argentino tenha argumentado que o projeto conta com um plano de mitigação, contingência e monitoramento, o Comitê da Unesco determinou que a informação fornecida é insuficiente. Em particular, foi apontado que não foram avaliadas adequadamente as consequências sobre o Valor Universal Excepcional do sítio protegido nem foram especificados os planos de resposta ante acidentes ou poluição acumulativa.
Por esta razão, a Unesco solicitou documentação exaustiva antes da próxima análise do caso, incluindo:
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O traçado completo do oleoduto e a localização de infraestruturas associadas.
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As rotas de navegação dos navios dentro e fora do golfo.
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O estudo de impacto ambiental integral, o plano de gestão e os registros da participação cidadã.
O país terá como prazo limite o 1 de fevereiro de 2027 para entregar este relatório atualizado, o qual será avaliado na 49ª sessão do Comitê.
O avanço da infraestrutura energética em Vaca Muerta
Este chamado de atenção internacional coincide com a expansão de grandes projetos de infraestrutura na região. Recentemente, o Governo aprovou iniciativas sob o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI), entre as quais se destaca o Gasoduto San Matías (com um investimento estimado de US$ 1.300 milhões).
Este projeto compreende o trecho Tratayén-San Antonio Oeste (472,5 km) e está desenhado para transportar gás desde a bacia neuquina até futuras plantas de exportação de GNL (Gás Natural Liquefeito). A obra impulsionada por San Matías Pipeline e o consórcio Southern Energy (integrado por PAE, YPF, Pampa Energía, Harbour Energy e Golar LNG) prevê ainda a instalação de duas unidades flutuantes de liquefação no golfo.
Rejeição e resistência de organizações ambientalistas
A proliferação de projetos hidrocarboníferos na costa de Río Negro e Chubut reativou os protestos de comunidades locais, cientistas e ONGs ambientalistas.
Desde campanhas como Golfo Azul Para Sempre, advertem que o avanço petrolífero coloca em grave perigo a biodiversidade marinha e atividades econômicas sustentáveis como o turismo e a pesca artesanal. Além disso, exigem que as decisões sobre financiamento e infraestrutura respeitem os compromissos internacionais subscritos pela Argentina em matéria de mudança climática e conservação.



