Durante décadas, a Austrália investiu milhões em campanhas de extermínio de jumentos selvagens, considerados pragas que danificavam cercas, bebedouros e cultivos. Eles eram até caçados de helicópteros para “limpar” o interior do país.
No entanto, pesquisas recentes mostram que esses animais podem se tornar aliados improváveis contra a desertificação, capazes de criar água, restaurar o solo e proteger fazendas quando geridos com planejamento científico e ambiental.
De inimigos a ferramentas de restauração
Os jumentos selvagens foram vistos quase exclusivamente como uma ameaça: competiam com o gado pela água e pisoteavam margens frágeis. Mas estudos de campo revelaram que seu comportamento natural pode ser uma poderosa ferramenta ecológica:
- Cavar poços de água: em épocas de seca, buscam umidade sob a superfície, criando pequenos bebedouros naturais que beneficiam aves, cangurus e outros animais.
- Quebrar a crosta do solo: seus cascos geram microfissuras que permitem a infiltração de água e nutrientes, favorecendo a germinação de sementes.
- Espalhar sementes e nutrientes: seus excrementos atuam como cápsulas fertilizantes, promovendo manchas de vegetação mais densa.
Projetos piloto e gestão controlada
A chave está em substituir o caos pelo controle. Em vez de manadas sem gestão, trabalha-se com grupos monitorados em áreas definidas:
- São utilizados em faixas estratégicas de terra para quebrar solos duros e criar corredores de infiltração de água.
- Costumam seguir rotas semelhantes, o que permite projetar trilhas que evitam zonas frágeis e reduzem danos.
- Com cercas planejadas e pontos de água alternativos, o impacto negativo diminui e o benefício ecológico se multiplica.
Neste esquema, os jumentos selvagens funcionam como “tratores biológicos”, movidos por grama e instinto, que ajudam a proteger as fazendas do avanço do deserto.

Ciência e planejamento ambiental
Nada disso funciona sem planejamento. As equipes de campo determinam:
- Quantos jumentos cada região pode suportar sem colapsar.
- Quais áreas precisam de mais ajuda para restaurar o solo.
- Onde sua presença é indesejável e devem ser removidos.
Em algumas zonas, o plano inclui cercar áreas de alto valor ecológico e concentrar os jumentos em terrenos degradados que precisam ser “reabertos” para receber água e vida.
Um debate aberto
O enfoque muda de “eliminar a espécie” para “utilizar seu comportamento natural para beneficiar a paisagem”. No entanto, o debate continua aberto:
- Um setor defende o sacrifício em massa como solução rápida.
- Outro grupo crescente vê nos jumentos selvagens uma oportunidade única para a recuperação do deserto e a proteção de explorações agrícolas ameaçadas pela seca.
O futuro dos jumentos selvagens na Austrália dependerá de como o país decidir coexistir com eles. Se continuarem a ser tratados apenas como um problema, continuará a gastar dinheiro em extermínio sem mudar a realidade do solo e da água. Mas se forem integrados em projetos de restauração ecológica, podem se transformar em aliados estratégicos para enfrentar a desertificação e fortalecer a resiliência agrícola.



