O fim de uma era: Morreu Pupy, a última elefanta do Ecoparque de Buenos Aires, a meses de encontrar a liberdade no Brasil

A elefanta do Ecoparque, após passar mais de três décadas em cativeiro em Buenos Aires, a elefanta africana faleceu no Santuário de Elefantes de Mato Grosso. Ela havia sido transferida em uma operação histórica em abril, mas as sequelas de sua vida no zoológico se mostraram irreversíveis.

Pupy, a última elefanta do Ecoparque portenho, morreu. Seu falecimento ocorreu no Santuário de Elefantes do Brasil, localizado em Chapada dos Guimarães, estado de Mato Grosso, apenas 176 dias após ter sido transferida de Buenos Aires para começar uma nova vida em liberdade.

A notícia foi confirmada pela organização Global Sanctuary for Elephants (GSF), que administra o refúgio. “Com profundo pesar compartilhamos a notícia de que Pupy faleceu na noite passada“, informaram em um comunicado.

Segundo detalhou a instituição, a elefanta havia apresentado problemas gastrointestinais intermitentes nos últimos dias. “Ela tinha histórico de cólicas, então sabíamos que isso era possível, mas mesmo em seus dias mais difíceis continuava comendo“, explicou a equipe. Embora seu apetite tenha melhorado com medicação, ontem voltou a diminuir.

El viaje a la lubertad de la elefanta Pupy
A viagem à liberdade da elefanta Pupy

O ponto de inflexão ocorreu quando, no início da tarde, expulsou cerca de um quilo e meio de pedras negras estranhas à geologia da região. “A partir desse momento tudo mudou. Pupy parecia mais fraca, estava um pouco mais distante das pessoas e, em geral, algo parecia diferente”, relataram.

Ela foi assistida durante todo o dia, mas seu estado deteriorou rapidamente. “Na hora da refeição noturna, Pupy parecia algo instável sobre suas patas“, descreveram.

No momento em que Scott Blais, diretor e cofundador do santuário, se aproximou para lhe dar água, suas patas cederam e ela caiu no chão. Kenya, a outra elefanta africana do santuário, mostrou preocupação imediata, mas permitiu que a equipe a movesse para um curral contíguo para poder assistir Pupy.

De lá, observou a cerca de vinte metros. A doutora Trish, veterinária que estava no local, começou a atendê-la, mas Pupy faleceu em questão de minutos. “Depois abriram o portão para que Kenya pudesse se aproximar de sua amiga. Embora no início tenha hesitado em tocá-la, depois se acalmou e passou a noite ao seu lado“, detalharam.

Da organização apontaram a dura realidade de seu trabalho: “No santuário recebemos elefantes mais velhos que passaram décadas sem uma dieta adequada, sem atenção veterinária e sem qualquer tipo de cuidado em suas patas, que são fundamentais para sua saúde. (…) Sabemos que os efeitos do cativeiro são profundos e, às vezes, impossíveis de reverter”.

Uma viagem de esperança para a elefanta do Ecoparque

Pupy, uma elefanta africana de 35 anos, havia chegado ao santuário em 18 de abril de 2025, culminando uma viagem por terra de cinco dias e mais de 2700 quilômetros desde o Ecoparque. Na época, a Subsecretaria de Meio Ambiente da Cidade informou que ela havia chegado “em perfeito estado de saúde” e que o trajeto foi realizado com um protocolo especial que não exigiu o uso de sedativos.

A complexa operação foi o resultado de um trabalho conjunto entre o Ecoparque, a Fundação Franz Weber e Global Sanctuary for Elephants.

“Pupy é a última elefanta que habitava o Ecoparque portenho e a última transferência de animais de grande porte”, comunicou o Governo da Cidade em abril. Sua chegada ao Brasil simbolizou o fechamento de uma etapa iniciada em 2016, quando o antigo zoológico foi transformado em um centro de conservação.

A viagem, que começou em 14 de abril, foi preparada minuciosamente, fortalecendo o vínculo de Pupy com a caixa de transporte e realizando controles médicos.

Durante o trajeto, foram feitas paradas programadas para seu descanso, alimentação e hidratação. Ao chegar, a equipe do Ecoparque descreveu o momento como “o primeiro dia de sua nova vida”, em um espaço inicial de dez hectares.

Scott Blais, diretor do santuário, explicou na época a cautela inicial de Pupy: “Toma impulso, se encoraja, chega até lá, e volta para trás. É normal, temos que pensar que nunca, nunca desde pequena saiu de seu recinto”.

A vida no santuário e a lembrança de Kuky

A intenção era que Pupy se adaptasse ao seu novo ambiente antes de conhecer Kenya, a elefanta africana que chegou de Mendoza em 9 de julho e que está há 94 dias no local. Pupy havia perdido sua companheira de toda a vida, Kuky, poucos dias antes da viagem. Como lembrança, os cuidadores levaram a cobertura de caminhão com a qual ambas costumavam brincar.

Kenya, a última elefanta em cativeiro do país, havia chegado à Argentina em 1984 de um zoológico alemão com apenas quatro anos, provavelmente após ser separada de sua mãe. Viveu 40 anos sozinha em Mendoza, e seu processo de preparação para a transferência durou sete anos, como parte do objetivo de levar todos os elefantes cativos da Argentina ao santuário brasileiro.

Em suas primeiras horas de liberdade, Pupy mostrou curiosidade. A veterinária Triscia London contou: “Hoje está mais brilhante, mais descansada, seguindo todas as vozes. (…) Enviei vídeos para meu parceiro, que trabalha na África, e ele disse: essa mente sabe que sua vida já é diferente”. O cuidador Leo Giovanelli, que a acompanhou na transferência, acrescentou: “A vejo muito tranquila. A vimos brincar, e isso é maravilhoso”.

O santuário de Chapada dos Guimarães é o primeiro de seu tipo na América Latina. Atualmente abriga cinco elefantas asiáticasMara, Guillermina, Rana, Maia e Bambi— e conta com um espaço separado para as africanas, onde agora Kenya permanece sozinha. “Tenho uma imensa gratidão com a Argentina por ter decidido que não queria mais elefantes atrás de grades. O mundo inteiro os observa”, havia afirmado Scott Blais.

O último adeus

Após a notícia, o Projeto ELE publicou em suas redes: “Pupy, para sempre livre. (…) Neste momento está sendo realizada a necropsia e estão sendo coletadas amostras de tecidos para enviar ao laboratório. Quando os resultados estiverem prontos, o que levará algumas semanas, serão informados publicamente”.

A organização concluiu: “Nos resta o consolo de saber que estava no melhor lugar, cuidada pelas melhores mãos e podendo fazer aflorar sua alma de elefante, que esteve reprimida em um zoo por tempo demais”.

A história de Pupy, que passou mais de três décadas confinada em Buenos Aires, termina a menos de seis meses de ter conhecido a liberdade. Sua viagem marcou o fechamento de uma etapa no Ecoparque e deixou uma marca indelével em todos os que seguiram seu breve, mas significativo caminho para a liberdade no Mato Grosso.

Compartí esta nota

Últimas notícias

Te pueden interesar
Te pueden interesar

Ricardito retorna aos pântanos: a recuperação de um jacaré que passou uma década em cativeiro como animal de estimação

Após mais de dez anos em cativeiro, um jacaré-de-papo-amarelo...

Alerta veterinária: a dor crônica afeta 4 em cada 10 cães e 6 em cada 10 gatos

O sedentarismo em animais de estimação é frequentemente atribuído...