Em outubro de 2025, uma operação oficial transferiu Pará, uma fêmea de onça-pintada (Panthera onca), junto com seus dois filhotes de um complexo habitacional militar em Puerto Iguazú para o Parque Provincial Esmeralda, dentro da Reserva da Biosfera Yabotí. A medida buscava evitar conflitos com a população urbana, onde foram detectadas armadilhas e iscas para matá-la.
O procedimento foi coordenado pelo Ministério da Ecologia de Misiones, o Projeto Yaguareté do Conicet e a Administração de Parques Nacionais. No entanto, após a liberação, o colar satelital mostrou que a mãe se afastou do local, enquanto os filhotes permaneceram nas proximidades e desde então não houve mais registros deles.
Críticas e questionamentos
A Red Yaguareté apresentou um documento de mais de 30 páginas à Ufima (Unidade Fiscal para a Investigação de Crimes contra o Meio Ambiente), questionando a translocação e apontando antecedentes de transferências fracassadas de onças-pintadas e pumas em Misiones.
Especialistas nacionais e internacionais também expressaram sua oposição a esse tipo de procedimento, alertando que os filhotes, por serem lactantes, não teriam chances de sobreviver sem a mãe.
O Ministério da Ecologia defendeu a decisão, assegurando que se tratou de uma “reunificação familiar” supervisionada por guardas florestais e organizações como a Fundação Azara e Güirá Oga. No entanto, reconheceu que “não é possível determinar com certeza a situação atual dos filhotes”.

Pará, uma sobrevivente
A história de Pará já estava marcada pela violência: em 2023 foi vítima de caça ilegal, perdeu um olho e sofreu impactos de chumbos. Por isso foi colocado um colar satelital que ainda permite monitorar seus movimentos.
Atualmente, ela continua no Parque Esmeralda, mas seu estado e o destino de seus filhotes continuam incertos.
Papel ecológico da onça-pintada
A conservação da onça-pintada em Misiones é fundamental para o equilíbrio da Mata Atlântica:
- Predador de topo: regula populações de herbívoros e evita o sobrepastoreio.
- Espécie guarda-chuva: ao proteger seu habitat, muitas outras espécies são conservadas indiretamente.
- Identidade cultural: mais de 50% dos habitantes de Misiones a consideram o animal mais emblemático da Argentina.
- Conservação in situ: Misiones abriga cerca de 90 indivíduos, sendo essencial criar corredores ecológicos e frear ameaças como a caça ilegal e atropelamentos.
- Benefícios ecossistêmicos: sua presença assegura a saúde das florestas, a regulação climática e o armazenamento de carbono.
Investigação em curso
A Ufima mantém aberta uma investigação federal para determinar se o procedimento foi adequado e esclarecer o destino dos filhotes.
O caso se tornou um símbolo dos desafios que enfrenta a conservação da onça-pintada na Argentina: como compatibilizar a proteção de uma espécie em perigo com a convivência em zonas urbanas e rurais.
O caso de Pará reflete a tensão entre a conservação de espécies emblemáticas e os conflitos com comunidades humanas. A ausência de notícias sobre seus filhotes gera preocupação e críticas, mas também evidencia a necessidade de protocolos mais rigorosos para a translocação de grandes felinos.
Proteger a onça-pintada não significa apenas salvar um animal, mas também preservar a biodiversidade e a identidade cultural de Misiones.



