Parque Patagônia, o cenário de um registro histórico: Odisea, a fêmea de gato do campo finalmente se revelou.

Sob a noite estrelada da estepa patagônica, um movimento silencioso entre o capim deu início a um marco na pesquisa de fauna selvagem. Após quatro anos de tentativas, a equipe do Parque Patagonia conseguiu capturar a “Odisea”, a primeira fêmea de gato do campo a usar uma coleira GPS. Este avanço marcou o início de um registro sem precedentes para a espécie, que inclui outros quatro exemplares monitorados.

Esse felino, de porte médio e pelagem densa, apresenta tons acinzentados e amarelados na Patagônia, com manchas que se misturam em seu ambiente natural. Sua cauda curta e corpo ágil permitem que ele se desloque com facilidade por pastagens, estepes com arbustos e áreas úmidas, onde desempenha um papel fundamental no controle de populações de pequenos roedores.

A confirmação de sua presença na área de conservação levantou novas questões sobre seus hábitos e territórios. Para respondê-las, foram colocadas coleiras GPS que registram a localização de cada exemplar a cada três horas. Dessa forma, é traçado um mapa detalhado de seus deslocamentos e áreas de uso, algo nunca antes documentado na região.

O processo de captura foi árduo e exigiu o aprimoramento de técnicas ao longo dos anos. Odisea foi a pioneira, e a partir de seu caso se juntaram “Moflete”, “Diego”, “Baldo” e “Sphynx”. As campanhas são realizadas por um ou dois meses, em horários noturnos e crepusculares, quando a espécie está mais ativa.

Odisea, a fêmea do gato do campo, apareceu após quatro anos. Foto: Agência El Rompehielos.
Odisea, a fêmea do gato do campo, apareceu após quatro anos. Foto: Agência El Rompehielos.

Dados reveladores e uma forte ligação com a água

Os primeiros registros mostraram um padrão claro: os gatos do campo dependem da presença de água mesmo em meio à estepes áridas. Seus deslocamentos incluem nascentes, pântanos e áreas úmidas, além de áreas de arbustos e formações rochosas em mesetas e ravinas. Em áreas abertas, suas aparições são menos frequentes e geralmente correspondem a deslocamentos entre abrigos.

A concentração de presas, como os preás, mais sensíveis à falta de água, poderia explicar sua afinidade por esses ecossistemas. O estudo também revelou sua surpreendente capacidade de movimentação. Um dos exemplares monitorados percorre mais de 30 quilômetros entre os extremos de seu território, superando amplamente o que se acreditava ser possível para essa espécie.

Para expandir a pesquisa, a equipe continua localizando novos indivíduos por meio de câmeras armadilhas e identificação de rotas de passagem. Esse acompanhamento busca otimizar as capturas e adicionar dados que fortaleçam as estratégias de conservação.

Odisea, a fêmea do gato do campo, apareceu após quatro anos. Foto: Agência El Rompehielos.
Odisea, a fêmea do gato do campo, apareceu após quatro anos. Foto: Agência El Rompehielos.

A importância do gato do campo para o ecossistema

O objetivo final é gerar informações básicas que evidenciem a importância ecológica do gato do campo e orientem medidas para sua proteção. Compreender seus hábitos, sua relação com a água e suas áreas de deslocamento é essencial para garantir sua sobrevivência em um ambiente em constante mudança e ameaçado pela atividade humana.

Nas noites frias do sul, o trabalho de campo segue seu curso. Cada novo registro é um passo em direção ao conhecimento profundo de um felino que, até recentemente, era quase um fantasma da estepe. Agora, graças à ciência e à persistência, sua história começa a ser escrita com traços claros e precisos.

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