Pinguins-de-Magalhães em Cabo Vírgenes: viagens de 120 km, mitos de fidelidade e o impacto das mudanças climáticas

No extremo sul de Santa Cruz, onde o vento e o mar ditam o ritmo, encontra-se a colônia de pinguins de Magalhães em Cabo Vírgenes, uma das maiores e mais singulares da Argentina. Sua cobertura vegetal quase total a diferencia de outras colônias e a torna um local chave para a espécie.

O pesquisador Esteban Frere, com mais de quatro décadas de trabalho na área, destaca que se trata de um lugar excepcional por seu tamanho e persistência em um ambiente hostil.

Viagens para alimentar os filhotes

Um dos focos da pesquisa atual é compreender os deslocamentos dos adultos durante a criação. Os primeiros resultados mostram que os pinguins percorrem distâncias maiores do que o esperado, chegando até 120 km ao norte da colônia. Além disso, as viagens, que costumavam durar menos de 24 horas, agora podem se estender até um dia e meio.

A dinâmica de cuidado é compartilhada:

  • No início, um dos pais permanece no ninho enquanto o outro busca alimento.
  • Quando os filhotes completam um mês, ambos os progenitores saem juntos em busca de comida.

Mitose realidades sobre a fidelidade

Embora a imagem romântica da fidelidade dos pinguins seja popular, Frere esclarece que se trata de um mito. Os casais podem se manter durante alguns anos, mas não a vida toda.

Inclusive, registram-se trocas de casais na mesma temporada, com fêmeas copuladas por mais de um macho. Algumas uniões duram até dez anos, outras apenas um ano e meio.

Migração parcial

Ao final da temporada reprodutiva, por volta do final de março, começa a dispersão. Em Cabo Vírgenes observa-se um fenômeno particular:

  • Alguns indivíduos migram para o norte, percorrendo até 4.000 km.
  • Outros permanecem perto, a cerca de 300 ou 400 km da colônia, sempre que haja alimento disponível.

Esse comportamento, conhecido como migração parcial, reflete a diversidade de estratégias dentro de uma mesma colônia.

pinguins de Magalhães
Os pinguins de Magalhães em Cabo Vírgenes surpreendem com suas distâncias de deslocamento.

Tecnologia e monitoramento

O acompanhamento combina métodos simples e tecnologia avançada:

  • Chips para identificar indivíduos sem necessidade de manipulá-los constantemente.
  • GPS durante a criação e geolocalizadores na migração. Os pesquisadores evitam dispositivos satelitais em tempo real para não afetar a hidrodinâmica dos animais, priorizando seu bem-estar.

Ameaças e mudança climática

As ameaças locais incluem captura incidental e poluição, embora difíceis de quantificar. No entanto, a principal preocupação é a mudança climática, que altera as condições do mar e a distribuição das presas. Isso torna mais imprevisível a reprodução e a migração, com possíveis impactos na distribuição de colônias e na taxa de reprodução.

Uma vida dedicada aos pinguins

Para Frere, a paisagem entre Cabo Vírgenes e Punta Dúngenes, onde começa o estreito de Magalhães, resume a essência desses animais: sobreviver em um ambiente mutável e hostil. “Foram 40 anos de uma grande aventura de conhecimento e fascinação”, afirma, refletindo a paixão que guia seu trabalho.

A história de Cabo Vírgenes lembra que ainda há muito a entender sobre essas aves extraordinárias. Cada temporada traz novas perguntas e desafios, em um canto do sul onde a ciência e a conservação se encontram para proteger uma espécie que simboliza resiliência e adaptação.

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