A busca por materiais mais sustentáveis para a construção de infraestrutura viária abre novas oportunidades para diminuir o impacto ambiental do setor. Uma das propostas mais inovadoras consiste em incorporar biochar ou biocarvão às misturas asfálticas, substituindo componentes tradicionais por um material elaborado a partir de resíduos agrícolas e florestais.
O desenvolvimento foi impulsionado por Agustí i Masoliver (AMSA), Asfaltos y Construcciones Elsan (ELSAN) e a Universitat Politècnica de Catalunya (UPC), cujos pesquisadores conseguiram converter resíduos orgânicos em um recurso capaz de reduzir a pegada de carbono das estradas.
A iniciativa obteve o reconhecimento do desafio urbano “A seção de rua do século XXI”, ao combinar inovação tecnológica, aproveitamento de resíduos e estratégias de mitigação das mudanças climáticas mediante soluções aplicáveis à infraestrutura urbana.

Resíduos agrícolas que se tornam um recurso ambiental
O biochar utilizado neste projeto é obtido mediante pirólise, um processo térmico que transforma biomassa na ausência ou com muito baixa presença de oxigênio, fixando grande parte do carbono em um sólido altamente estável.
Para produzir este material são utilizados caroços de azeitona e restos de pinho, dois resíduos abundantes em várias regiões mediterrâneas que habitualmente possuem um aproveitamento limitado.
Sua incorporação ao asfalto permite valorizar materiais que, de outra forma, poderiam degradar-se ou ser incinerados, liberando novamente dióxido de carbono na atmosfera. Desta forma, a gestão de resíduos agrícolas se integra com a construção sustentável.
Estradas capazes de armazenar carbono durante décadas
Uma das principais vantagens do biochar é sua capacidade para imobilizar carbono durante longos períodos. Enquanto os restos vegetais se decompõem rapidamente em condições naturais, o biocarvão conserva esse carbono durante décadas dentro de uma estrutura química muito estável.
Ao incorporar-se à camada superficial do pavimento, o carbono capturado previamente por árvores e cultivos permanece retido dentro da infraestrutura viária, transformando as estradas em pequenos reservatórios de carbono.
Os testes de laboratório também demonstraram que as misturas elaboradas com biochar mantêm um comportamento comparável ao dos asfaltos convencionais, enquanto permitem reduzir até 75% as emissões associadas a essa parte do pavimento.

As azeitonas também oferecem soluções para a economia circular
Além de aproveitar seus caroços para fabricar biochar destinado à construção de estradas, as azeitonas e seus subprodutos oferecem inúmeras aplicações com benefícios ambientais. O bagaço e os restos de poda podem ser utilizados para produzir composto, melhorando a fertilidade do solo e favorecendo a agricultura regenerativa.
Os resíduos do olival também servem como biomassa para gerar energia renovável, reduzindo o consumo de combustíveis fósseis e dando valor a materiais que antes eram considerados resíduos. Além disso, parte desses subprodutos pode incorporar-se a processos industriais para elaborar bioplásticos, fertilizantes orgânicos ou substratos destinados à restauração de solos degradados.
O aproveitamento integral das azeitonas constitui um exemplo de economia circular, já que permite reduzir resíduos, diminuir emissões de gases de efeito estufa e gerar novos produtos sustentáveis a partir de recursos locais. Este modelo contribui tanto para a proteção ambiental como para o desenvolvimento de atividades produtivas com menor impacto sobre os ecossistemas.



