A contaminação plástica transformou-se em uma emergência ambiental e sanitária planetária, mas os esforços para alcançar um tratado internacional vinculante para frear sua produção continuam enfrentando sérias dificuldades políticas e econômicas.
Impulsionadas pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), as negociações para um tratado global estão estagnadas, bloqueadas pela pressão de países petroleiros e conglomerados industriais que buscam suavizar as metas de redução.
No próximo mês de agosto, Genebra será sede de uma nova rodada de negociações, numa tentativa de destravar o diálogo.
O contexto é complexo: a última cúpula realizada em Busan, Coreia do Sul, terminou sem avanços significativos, devido à oposição de um grupo de países liderados pela Arábia Saudita, relutantes em aceitar qualquer restrição sobre a produção de plástico.
Reciclagem insuficiente e lobby empresarial dificultam avanços reais
As cifras são alarmantes: em 2023, a produção mundial de plásticos ultrapassou os 413 milhões de toneladas, das quais apenas 8,7 % foram provenientes de materiais reciclados. Se medidas firmes não forem aplicadas, esse número poderia atingir os 712 milhões de toneladas anuais até 2040.
Organizações científicas e ambientais, como a Coalizão de Cientistas por um Tratado Eficaz sobre Plásticos (SCEP), insistem na necessidade de impor limites concretos à produção, mas denunciam sua exclusão dos debates centrais.
Em Busan, 220 representantes corporativos participaram do encontro, mais do triplo dos cientistas credenciados.
Os plásticos que acabam no oceano.[/caption>
O cerne da discordância reside no enfoque do tratado. A maioria dos países, apoiados por mais de mil especialistas científicos, propõe intervir montante acima, ou seja, na redução direta da fabricação de plástico.
Por outro lado, os estados produtores de petróleo e resinas plásticas insistem em soluções montante abaixo, centradas exclusivamente na gestão de resíduos e reciclagem, o que para muitos especialistas é claramente insuficiente.
“Produzimos mais plástico do que conseguimos lidar. Pensar que a reciclagem resolverá isso é uma fantasia”, alertou o advogado ambientalista David Azoulay, do Centro de Direito Ambiental Internacional.
Uma emergência global com impactos visíveis e taxas de reciclagem marginais
Globalmente, a reciclagem efetiva continua sendo marginal: apenas 9 % do plástico produzido historicamente foi reciclado. Em áreas com infraestrutura avançada, como a Europa, a taxa de reciclagem de resíduos domésticos atinge 24,5 %, enquanto em muitas regiões do mundo a reciclagem é praticamente inexistente.
A presença de plástico foi detectada nos locais mais remotos: desde o cume do Everest e o fundo oceânico, até no leite materno e em tecidos humanos.
Estima-se que mais de 11 milhões de toneladas foram parar nos ecossistemas aquáticos durante 2023, e esse número poderia triplicar até 2040 se não ocorrer uma mudança estrutural.
Os produtos descartáveis e as embalagens plásticas representam quase 66 % do volume total, com níveis de reciclagem extremamente baixos. Eles são o foco crítico de uma crise ambiental crescente, cuja abordagem depende do desfecho das negociações internacionais.



