A Organização das Nações Originárias: um novo ator político global criado por comunidades indígenas de todo o mundo

A Organização das Nações Originárias (ONO) reúne comunidades indígenas de diferentes continentes e propõe uma identidade política clara: são nações preexistentes aos Estados modernos, com direito à autodeterminação territorial, cultural e linguística.

“A ONO surge porque vivemos uma multicrise sistêmica mundial”, afirma Silvio Ayala Pacheco, presidente da ONO e descendente inca ao portal Pagina 12. Com este diagnóstico, a organização se apresenta como um espaço internacional que busca dar voz e representação política às nações originárias, frente a problemáticas como o extrativismo, a crise climática, a discriminação histórica e a falta de participação em organismos estatais e multilaterais.

Um espaço de articulação internacional

A organização funciona como um espaço de articulação global para defender direitos, compartilhar diagnósticos e construir posições conjuntas frente a problemas comuns.

Ayala sustenta que o planeta opera sob um modelo civilizatório eurocêntrico de caráter colonialista, armamentista e fundamentalista, que impõe uma lógica econômica centrada na acumulação material e na propriedade privada, à custa da terra e da vida comunitária. Segundo sua visão, essa matriz conduz à degradação ambiental, fragmentação social e perda de vínculos comunitários.

De Cusco à Guatemala: o caminho da ONO

Embora a formalização tenha chegado na Assembleia Mundial de Cusco em 2024, a ONO começou a se formar em 2022, quando o Conselho de Nação do Tawantinsuyu (Conatagua) impulsionou uma primeira reunião com delegações de 14 países das três Américas.

Após um ano de trabalho, a iniciativa se expandiu para a África e culminou na primeira Assembleia Mundial em Cusco (2024), seguida pela segunda na Guatemala (2025). O México já foi escolhido como sede para a reunião de 2026.

A estrutura combina coordenação com horizontalidade, liderada por Ayala e sustentada por um conselho internacional com sede operativa em Lima.

Agenda central: territórios, cultura e direitos

A ONO intervém sobre um amplo leque de problemáticas, com ênfase na defesa dos territórios ancestrais e na preservação cultural.

Ayala denuncia que os Estados estão controlados por empresas que ditam o roteiro e criminalizam autoridades comunitárias e defensores ambientais. A ONO busca visibilizar essas práticas mediante declarações, observação internacional e redes de apoio continental.

A organização sustenta que qualquer atividade econômica em territórios indígenas deve ser realizada com consulta prévia, padrões ambientais rigorosos e respeito pleno pela diversidade intercultural.

“Não nos opomos ao desenvolvimento econômico, mas deve estar subordinado à sinergia com o desenvolvimento social”, propõe Ayala.

Nações originárias
A ONO busca instalar as nações indígenas como protagonistas frente à crise climática e ao extrativismo.

Nação vs. povo: um debate político e linguístico

Um dos debates centrais é a diferença entre “povos indígenas” e “nações originárias”. Para Ayala, o termo nação expressa continuidade territorial e identidade própria, enquanto povo foi imposto por tradições coloniais para designar grupos subordinados sem terra nem reconhecimento político.

“Somos originários com própria identidade de um território constituído por uma nação”, explica.

Comunicação e memória cultural

A disputa comunicacional ocupa um lugar chave na ONO. Karina Krenn (Salvia Azul), referência internacional de direitos humanos, aponta que o objetivo é desmontar narrativas eurocêntricas arraigadas na educação e nos meios de comunicação.

“É dificílimo não encontrar no DNA de cada um de nós uma presença originária”, afirma, citando estudos do CONICET que encontraram linhagens de mais de 8.500 anos ainda presentes na população atual.

A ONO impulsiona que as comunidades tomem a palavra diretamente: “Já basta de ter interlocutores. A proposta é unir e elevar nossas próprias vozes”, sustenta Krenn.

Tecnologia e resistência contemporânea

A colonização se prolonga sob novas formas normativas, econômicas e midiáticas. Frente a isso, a ONO aposta na tecnologia como ferramenta de resistência. Redes sociais como Instagram, Facebook ou X permitem às comunidades narrar suas experiências, documentar violências e sustentar a continuidade cultural em um mundo hiperconectado.

Rumo a uma fraternidade mundial

Com duas assembleias realizadas e uma terceira a caminho, a ONO se consolida como um ator emergente no cenário internacional. Seu desafio é transformar princípios históricos —autonomia territorial, reconhecimento identitário, defesa ambiental e o paradigma do Bem Viver— em uma agenda política concreta além das fronteiras estatais.

Ayala resume o horizonte da organização: construir “a grande fraternidade mundial de coexistência pacífica e deixar um mundo saudável, justo e digno para as futuras gerações”.

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