Em um parecer histórico, a Suprema Corte poderia intervir no caso de dano ambiental do Canal de La Patria em Santiago del Estero

A Procuradoria Geral da Nação (PGN) determinou esta semana a favor da competência originária da Corte Suprema de Justiça no caso de dano ambiental vinculado ao Canal de La Patria, em Santiago del Estero.

Este passo judicial, impulsionado por organizações ambientalistas, marca um precedente chave na defesa da biodiversidade do Grande Chaco argentino.

Denúncias de ONG e um parecer histórico

A denúncia foi apresentada em junho por Aves Argentinas, Fundação Vida Silvestre Argentina e Fundação Ambiente e Recursos Naturais, após ser conhecido que a obra pública havia provocado a morte de dezenas de espécies em perigo de extinção e afetado gravemente a mobilidade silvestre.

O parecer da PGN sustenta que o caso deve ser resolvido diretamente pelo Alto Tribunal, já que existem responsabilidades contratuais conjuntas entre a Província de Santiago del Estero e o Estado Nacional.

“Os acordos deram lugar a responsabilidades conjuntas, compartilhadas e específicas dos órgãos demandados para o desenvolvimento da obra”, apontaram as ONG.

O Canal de La Patria: uma “armadilha mortal”

O canal, construído na década de 70, tem dois metros de largura e 180 quilômetros de comprimento, com paredes íngremes de concreto.

Um relatório de 2025 revelou que 250 exemplares de 40 espécies distintas ficaram presos e morreram afogados, o que levou a caracterizá-lo como uma “armadilha mortal”.

A construção fragmenta o habitat e enfraquece ainda mais a frágil situação da fauna chaqueña, em uma região considerada uma das mais ameaçadas do planeta pela desmatamento sem limites.

Canal de La Patria
O Canal de La Patria representa uma ameaça para a biodiversidade local. 

Responsabilidades compartilhadas e alcance judicial

A PGN fundamentou seu parecer em convênios assinados entre a província e entidades nacionais, como o Ente Nacional de Obras Hídricas e Saneamento (ENOHSA) e a Secretaria de Infraestrutura e Política Hídrica do Ministério de Obras Públicas.

O organismo concluiu que é impossível garantir o direito de defesa e restituir o direito tutelado —a biodiversidade do Grande Chaco— sem a participação de todas as partes envolvidas.

A ação judicial por dano ambiental de incidência coletiva é dirigida contra a Província de Santiago del Estero e o Estado Nacional, e agora circula entre os ministros da Corte para sua resolução definitiva.

Impacto humano e ecossistêmico

Além do dano ambiental, o canal representa um perigo para a vida humana. O curso de água abastece vilas e cidades em seu percurso, e seu design tem provocado acidentes fatais.

Em 10 de novembro, foi conhecida a morte de uma criança de dois anos na comunidade de Lilo Viejo, após cair no canal. O fato reacendeu a urgência de encontrar soluções que garantam a segurança das comunidades e a proteção da fauna.

Um caso que transcende fronteiras

O Canal de La Patria se tornou um símbolo dos desafios que enfrenta a região do Grande Chaco: infraestrutura sem planejamento ambiental, perda de biodiversidade e riscos para a população.

O parecer da PGN abre a porta para que a Corte Suprema estabeleça jurisprudência em matéria de dano ambiental, reconhecendo a necessidade de responsabilidades compartilhadas e de políticas públicas que priorizem a conservação dos ecossistemas mais ameaçados do país.

O caso do Canal de La Patria reflete a tensão entre o desenvolvimento de obras públicas e a proteção ambiental. A intervenção da Corte Suprema poderia marcar um antes e depois na jurisprudência argentina, fortalecendo o princípio de precaução e o direito constitucional a um ambiente saudável.

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