Greenpeace denuncia obstrucionismo de salmoniculturas após a morte de duas baleias na Patagônia chilena

Um ano após a morte de duas baleias jubarte na Patagônia chilena, a organização internacional Greenpeace denunciou obstrucionismo por parte das empresas de salmão na investigação.

Os ativistas protestaram pelo escasso avanço judicial e criticaram que ainda não foram identificados os responsáveis, apesar de as necropsias dos cetáceos terem revelado lesões compatíveis com redes e cordas utilizadas na indústria.

“Essas baleias viajaram milhares de quilômetros em busca de refúgio e encontraram grandes ameaças, gaiolas, embarcações e negligência estatal. Um ano depois, as empresas de salmão ainda não forneceram todas as informações e a justiça ainda não deu uma resposta”, declarou Roxana Núñez, encarregada de Incidência do Greenpeace Andino.

Falta de relatórios e aplicação da lei

O Greenpeace destaca que as empresas de salmão não entregaram os relatórios completos solicitados e reclama que o Chile tenha protocolos e perícias adequadas para esse tipo de caso.

Desde 2023, uma lei estabelece penas de até 10 anos de prisão e grandes multas econômicas por afetar áreas protegidas. No entanto, a organização denuncia que a legislação não está sendo aplicada corretamente.

“Hoje existe uma lei que pune aqueles que destroem ecossistemas protegidos, mas a falta de ação e coordenação ameaça transformá-la em uma promessa mais do que em uma ferramenta real de justiça”, acrescentou Núñez.

As áreas afetadas incluem o Parque Nacional Laguna San Rafael e a Reserva Nacional Kawésqar, ambos territórios protegidos a nível ambiental.

muerte de ballenas
As salmoneras chilenas e sua responsabilidade na morte de baleias.

Os impactos da salmonicultura no Chile

O caso das baleias reflete um problema maior: os graves impactos ambientais e sociais da indústria de salmão no Chile, especialmente em ecossistemas vulneráveis como a Patagônia.

Impactos ambientais

  • Poluição: a criação intensiva gera resíduos orgânicos (fezes e alimento não consumido) que consomem oxigênio e liberam compostos tóxicos. Somam-se antibióticos, plásticos e redes abandonadas.
  • Perda de biodiversidade: as fugas de salmões ameaçam espécies nativas ao competir por alimento ou predá-las.
  • Superprodução: acusações de tecnologias obsoletas e excesso de produção que geram mais resíduos do que os ecossistemas podem suportar.

Impactos sociais e culturais

  • Conflitos com comunidades locais: a indústria altera práticas tradicionais de pesca artesanal em áreas como Chiloé, Puerto Montt e Aysén.
  • Impacto em povos indígenas: comunidades como os Kawésqar denunciam falta de consulta prévia e afetação de seus territórios ancestrais.
  • Ameaça a outros projetos: o turismo e atividades recreativas temem a degradação de ecossistemas pristinos como o rio San Pedro.

Preocupações de saúde pública

  • Uso excessivo de antibióticos: o Chile utiliza mais antibióticos na salmonicultura do que outros países, gerando resíduos que podem chegar ao consumo humano.
  • Resistência bacteriana: o consumo de resíduos de antibióticos no salmão pode contribuir para o desenvolvimento de bactérias resistentes.

Justiça ambiental em jogo

A denúncia do Greenpeace evidencia a tensão entre a proteção de ecossistemas marinhos e os interesses de grandes empresas. A organização insiste que a lei chilena deve ser aplicada com rigor, mesmo quando os responsáveis são atores econômicos poderosos.

A morte das baleias jubarte se tornou um símbolo da fragilidade da Patagônia frente à expansão da salmonicultura e um chamado urgente para fortalecer a fiscalização, a transparência e a justiça ambiental.

O caso da morte das baleias jubarte na Patagônia expõe as contradições da indústria de salmão no Chile: enquanto é promovida como motor econômico, seus impactos ambientais, sociais e sanitários geram conflitos e colocam em risco ecossistemas únicos.

A exigência do Greenpeace e das comunidades locais é clara: aplicar a lei, garantir justiça e proteger os territórios que são patrimônio natural e cultural. A pergunta que fica em aberto é se as autoridades terão a vontade de fazê-lo ou se a legislação continuará sendo letra morta frente ao poder das grandes empresas.

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