Com a entrada em vigor do acordo UE–Mercosul em maio de 2026, o crescimento das exportações de carne argentina se tornou uma prova de fogo para avaliar se o comércio internacional pode se expandir sem enfraquecer as proteções ambientais.
Enquanto a União Europeia exige padrões cada vez mais rigorosos no âmbito do seu Pacto Verde, outros mercados como China e Estados Unidos impõem condições muito mais brandas, gerando uma lacuna regulatória que permite aumentar exportações sem necessariamente cumprir com maiores salvaguardas ambientais.
Expansão produtiva e desmatamento
A Argentina atravessa um momento de expansão produtiva: as exportações de carne bovina alcançam níveis históricos e a produção se intensifica. No entanto, esse crescimento já mostra impactos em regiões sensíveis como o Gran Chaco, a segunda maior massa florestal da América do Sul depois da Amazônia.
A expansão agropecuária, incluindo a produção de soja destinada a alimentar a cadeia pecuária, tem estado associada a processos de desmatamento e conversão de florestas, segundo evidências da Global Forest Watch. Isso reflete como a intensificação orientada para a exportação pode exercer pressão sobre os ecossistemas e comprometer a biodiversidade.

Bem-estar animal e padrões desiguais
A organização Sinergia Animal adverte que o acordo UE–Mercosul poderia incentivar o enfraquecimento das proteções ambientais e de bem-estar animal. Suas investigações em mercados de leilões da Argentina e Chile revelam extrema crueldade animal, reforçando a ideia de que o crescimento produtivo nem sempre é acompanhado de marcos de proteção equivalentes.
Quando se prioriza o crescimento das exportações em mercados que não exigem responsabilidade ambiental, existe o risco de uma “competição para baixo” em padrões, onde os ecossistemas, a segurança hídrica e a saúde pública se tornam danos colaterais das cadeias globais de suprimento.
Declarações de Sinergia Animal
Romina Viscarret, diretora da organização na Argentina, enfatizou: “O crescimento das exportações de carne faz parte de um sistema alimentar global cada vez mais interconectado, mas não pode ocorrer sem considerar seus impactos sobre os ecossistemas, os recursos naturais e o bem-estar animal. Um comércio sustentável deveria fortalecer esses padrões em vez de enfraquecê-los”.
Além da carne bovina: o caso dos ovos
A intensificação produtiva não se limita à carne. Segundo a Câmara Argentina de Produtores e Industrializadores Avícolas (CAPIA), em 2025 a Argentina se tornou o maior consumidor de ovos do mundo, com 398 unidades per capita ao ano e uma produção de quase 19 bilhões de ovos.
Para sustentar esse nível de consumo, mais de 62 milhões de galinhas vivem confinadas em gaiolas em bateria convencionais, um sistema proibido na União Europeia desde 2012. Diante desse panorama, Viscarret apontou que “se a Argentina lidera em consumo, também deveria aspirar a liderar em padrões de bem-estar animal”.
O auge da carne argentina e a intensificação da produção animal colocam um dilema central: pode o país expandir seu papel no comércio global sem retroceder na proteção ambiental e no bem-estar animal?
O desafio é assegurar que os acordos internacionais e as políticas domésticas não se tornem um incentivo para a desregulamentação, mas sim uma oportunidade para fortalecer padrões e garantir um comércio verdadeiramente sustentável.



