Um técnico operador dos satélites SAOCOM, que fornecem dados cruciais para questões ambientais, expressou nas redes sociais sua preocupação com o futuro do sistema espacial argentino.
O testemunho de Daniel Aguirre, profissional com doze anos de experiência na Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CONAE), viralizou rapidamente por sua franqueza.
“Falar em fechar ou enfraquecer a CONAE não é uma questão simbólica ou orçamentária. É falar em desligar um sistema que requer décadas de investimento, formação de recursos humanos, infraestrutura e conhecimento”, disse Aguirre em seu texto.

## Satélites claves para o monitoreo ambiental
O testemunho foi compartilhado nesta semana, poucos dias depois da demissão de cerca de vinte trabalhadores da empresa aeroespacial estatal VENG em Córdoba, diretamente ligada à CONAE.
No diálogo com outros usuários, o operador espacial mencionou que, embora não haja um anúncio oficial de encerramento, na prática está ocorrendo um desmantelamento progressivo da instituição científica. “Contratos foram suspensos, projetos novos foram interrompidos e posições-chave não estão sendo preenchidas. Tudo isso está deixando a CONAE sem capacidade operacional”, respondeu a uma consulta.
Em sua carta, Aguirre ressaltou que a tecnologia gerada nesses centros impacta diretamente na vida da população. Os dois satélites SAOCOM (Satélite Argentino de Observação com Microondas) foram lançados ao espaço entre 2018 e 2020. Eles fornecem informações sobre solos, águas, vegetação, além de dados para prevenção e gestão de catástrofes.
“Qualquer um que já tenha visto como nossos satélites ajudam a monitorar um incêndio, uma inundação, uma seca, ou como ajudam a prever o uso do solo ou a proteger nossa pesca, sabe que isso não é ‘despesa’. É um investimento inteligente, soberania, capacidade de ação”, expressou Aguirre.
O técnico também destacou o respeito que a ciência espacial argentina tem ganhado nos últimos anos. Países como Estados Unidos, Itália e Brasil colaboraram com as missões coordenadas pela CONAE.
O operador espacial apelou à sua experiência direta, dizendo que “não fala de um escritório”, mas das salas de operações onde os dados são sistematizados. Aguirre conclui fazendo um apelo para não permitir que “se apague o espaço argentino”.
“Falo da emoção de ver um satélite decolar no qual trabalhamos por anos. E também da preocupação de que tudo isso se perca. Por isso, hoje mais do que nunca, peço que defendamos o que construímos”.

## Programa espacial em risco
Os alertas sobre o futuro incerto do desenvolvimento espacial argentino estão se tornando cada vez mais fortes.
No final do ano passado, o governo anunciou o adiamento do lançamento ao espaço do terceiro satélite da Arsat, conhecido como SG1, para outubro de 2027. Inicialmente, o lançamento estava previsto para o início de 2025. Este novo equipamento é importante, pois complementaria e substituiria os dois primeiros satélites da Arsat, cujas vidas úteis expiram em 2029. Um novo adiamento colocaria em risco a continuidade do projeto espacial.
Outro caso chamativo foi a vitória da equipe do Instituto Tecnológico de Buenos Aires (ITBA) na Competição CanSat 2025, organizada pela NASA. Enquanto o presidente Javier Milei celebrava com orgulho nas redes sociais a conquista, soube-se que sua administração eliminou o programa argentino equivalente. CanSat Argentina era um programa educativo promovido pelo então Ministério de Ciência e Tecnologia junto à CONAE. Essa iniciativa permitia que jovens, entre 13 e 19 anos, projetassem, construíssem e lançassem pequenos satélites. Em 2024, o programa foi suspenso no contexto do ajuste científico.



