Parques nacionais em perigo devido à flexibilização que permite a construção em áreas protegidas patagônicas

A Administração de Parques Nacionais (APN) aprovou a Resolução 300/2025, um novo marco normativo que redefine os parâmetros de edificação dentro dos parques nacionais do sul argentino. A medida substitui a Resolução 180/2012 —vigente até agora apenas em Lanín e Nahuel Huapi— e amplia seu alcance a todas as áreas protegidas patagônicas.

O documento introduz novos critérios para calcular a ocupação do solo e as superfícies edificáveis, incorporando categorias de espaços cobertos e semicovertos que, na prática, permitem um maior volume de construção. Os fatores FOS e FOT, que determinam quanta superfície uma obra pode ocupar, foram ampliados sob o argumento de “modernizar” as normas para adequá-las ao turismo atual.

No entanto, organizações ambientais e especialistas alertam que a medida pode abrir a porta para uma expansão imobiliária dentro dos parques, em um contexto de redução do pessoal técnico e escassa capacidade de controle estatal. O risco, sustentam, é que sob o discurso da sustentabilidade se flexibilizem os limites de proteção ambiental.

A Direção Nacional de Infraestrutura e a Coordenação Zona Sul serão responsáveis pela aplicação do novo regulamento. No entanto, sem mecanismos de transparência nem fiscalização robusta, o temor é que estas normas beneficiem desenvolvedores privados em detrimento dos objetivos de conservação.

Tarefas de corte de árvores no Parque Nacional Lanín. (Foto: Parque Lanín).
A nova flexibilização permite mais construções dentro dos parques nacionais patagônicos. (Foto: Parque Lanín).

As consequências que a flexibilização poderia trazer

A aprovação da Resolução 300/2025 coincide com uma etapa de ajuste orçamentário e perda de pessoal dentro da APN. Segundo dados da Associação de Trabalhadores do Estado (ATE), há apenas 363 combatentes de incêndios florestais ativos, quando o mínimo necessário seria de 700. Essa redução também atinge as equipes técnicas que devem supervisionar obras e monitorar o cumprimento das normas ambientais.

Nesse contexto, a expansão de projetos turísticos ou imobiliários poderia gerar impactos difíceis de reverter. Sem pessoal suficiente para fiscalizar, as construções poderiam avançar sobre ecossistemas frágeis, afetando a flora, a fauna e os cursos de água que sustentam o equilíbrio natural da Patagônia.

A região patagônica abriga florestas temperadas, lagos glaciais e estepes únicas, que desempenham um papel crucial na regulação climática e na conservação da biodiversidade. Qualquer modificação do solo nessas áreas repercute diretamente sobre espécies endêmicas, corredores biológicos e bacias hidrográficas que abastecem comunidades humanas.

A isso se soma que muitos parques nacionais, como Lanín, Nahuel Huapi ou Los Alerces, estão rodeados por zonas de alto valor turístico e pressão urbanística. O novo marco normativo, se não aplicado com controles rigorosos, poderia incentivar a construção em setores que até agora se mantinham livres de intervenção.

Parque Nacional Lago Puelo
Parque Nacional Lago Puelo

Uma tensão que retorna: desenvolvimento versus conservação

A Resolução 300/2025 reaviva um velho debate na gestão ambiental argentina: como equilibrar a promoção do turismo com a preservação da natureza. Enquanto a APN argumenta que busca “atualizar critérios construtivos”, os especialistas sustentam que a sustentabilidade não pode depender apenas de parâmetros edilícios, mas sim de um planejamento territorial baseado em limites ecológicos.

As áreas protegidas existem para garantir a conservação do patrimônio natural e cultural do país. Se esse princípio for enfraquecido, o risco é que o turismo —um dos motores econômicos mais importantes da Patagônia— perca precisamente seu maior atrativo: a pureza das paisagens e a integridade de seus ecossistemas.

A aplicação da Resolução 300/2025 será um teste chave para a Administração de Parques Nacionais. Sua capacidade de fiscalizar e manter o equilíbrio entre desenvolvimento e preservação determinará se esta nova etapa representa uma oportunidade para modernizar a gestão ou um retrocesso que coloque em perigo o legado ambiental da região.

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