Desde outubro de 2022, a instalação de escadas de corda e pontes suspensas nas selvas tropicais do estado do Amazonas tem permitido que milhares de animais — incluindo macacos, gambás e ouriços — cruzem as estradas sem se exporem ao tráfego.
De acordo com um relatório publicado em 12 de agosto, as denúncias de colisões reduziram a quase zero, marcando um marco na proteção da biodiversidade.
Reconecta: infraestrutura ecológica para restaurar a conectividade da paisagem
O projeto liderado por Fernanda Abra combina ciência, conhecimentos indígenas e monitoramento tecnológico.
A iniciativa, conhecida como Projeto Reconecta, instalou até agora 30 pontes de corda e arame entre as copas das árvores. Essas estruturas foram projetadas em colaboração com o povo indígena Waimiri-Atroari, que contribuiu com conhecimentos sobre os padrões de movimento da fauna local.
Cada ponte está equipada com câmeras de armadilha que registram o uso pelos animais, gerando dados-chave para:
- Monitorar populações selvagens
- Planejar a localização de futuras travessias
- Avaliar o impacto na conservação de espécies ameaçadas
Estradas e fragmentação de habitats: um problema crescente na Amazônia
A expansão viária divide ecossistemas e coloca em risco espécies que dependem do dossel arbóreo.
A construção de estradas na região amazônica gerou uma fragmentação severa do habitat, forçando os animais a atravessar o asfalto e os expondo a atropelamentos fatais. Este foi o caso do tití de Groves, uma das 25 espécies de primatas mais ameaçadas do mundo, que inspirou o compromisso de Fernanda Abra com a proteção da fauna arbórea.
“O tití de Groves depende das árvores para se deslocar. Sem conectividade, ele perde acesso a recursos e capacidade reprodutiva”, explicou Abra.

Design biomimético: pontes que imitam o ambiente natural
As estruturas são projetadas para facilitar a passagem segura e respeitar o comportamento das espécies.
As pontes suspensas foram projetadas para replicar as condições do dossel florestal, permitindo que espécies como o macaco-aranha-da-Guiana, o bugio-de-mãos-vermelhas-de-Spix e o sagui-de-mãos-douradas se movam sem riscos. Algumas travessias incorporam travessias de tirolesa, adaptadas às habilidades locomotoras dos primatas.
Ciência aplicada à conservação: monitoramento e planejamento estratégico
As câmeras de armadilha instaladas em cada ponte registram:
- Frequência de uso por espécie
- Horários de trânsito
- Comportamentos associados à travessia
Essas informações são essenciais para otimizar o design, identificar novas áreas de intervenção e fortalecer a conectividade ecológica em paisagens fragmentadas.
Um modelo replicável para a América Latina
Reconecta demonstra que a infraestrutura verde pode salvar vidas e restaurar ecossistemas.
O sucesso do projeto no Brasil abre caminho para replicar essa estratégia em outras regiões tropicais, onde a expansão viária ameaça a biodiversidade.
A combinação de tecnologia, participação comunitária e pesquisa científica oferece um roteiro para integrar conservação e desenvolvimento territorial.



