Um povoado de Chubut exige transparência e gestão participativa diante da crise hídrica e do avanço pesqueiro

A localidade chubutense de Camarones enfrenta uma crise hídrica que se arrasta há décadas e nunca foi resolvida. O abastecimento de água funciona sob um regime de cortes programados, o que obriga os moradores a organizar sua vida cotidiana em torno de horários irregulares.

A situação se agravou com o início da prospecção de merluza, que aumentou a demanda industrial e gerou tensões sociais e políticas.

Um povo dividido pelo cronograma

O acesso à água não é um direito garantido, mas sim um exercício de subsistência diária. O abastecimento é distribuído em dois turnos: metade da cidade recebe água pela manhã e a outra pela tarde, em blocos de quatro horas que raramente são cumpridos.

  • Famílias numerosas e setores vulneráveis sofrem mais com a irregularidade.
  • O bairro Islas Blancas depende de um caminhão-pipa municipal que entrega entre 1.000 e 2.000 litros semanais, embora o transporte não esteja habilitado para consumo humano.
  • Os setores com mais recursos podem comprar água mineral ou pagar entregas extras, aprofundando a desigualdade social.

A pressão da indústria pesqueira

A atividade pesqueira é o maior consumidor de água doce na região. Com a prospecção de merluza, os moradores temem que o recurso seja destinado prioritariamente às plantas de processamento.

  • Em 2022, o consumo combinado do porto e das plantas equivalia à metade do volume bombeado dos aquíferos locais.
  • Os moradores denunciam falta de controle sobre os grandes consumidores.
  • Uma planta dentro do perímetro municipal gera incômodos pelo tratamento inadequado de seus efluentes.
crise hídrica
A crise hídrica em Camarones é um problema grave que se acompanha de tensão social.

Risco sanitário e opacidade de dados

A potabilidade da água é uma das reivindicações mais críticas. O sistema é alimentado por duas camadas:

  • La Lochiel, suspeita de altos níveis de arsênio.
  • Paso de Piedras, com indícios de salinidade elevada.

Apesar de pedidos formais amparados na Lei I-156 de acesso à informação pública, o município se recusou a publicar os resultados das análises de qualidade. Os moradores suspeitam que a água não é potável e exigem transparência.

Gestão deficiente e falta de participação

A crise hídrica é também uma crise de gestão. Os problemas incluem:

  • Rede de tubulações obsoleta com perdas massivas.
  • Escassa recarga de camadas por efeito das mudanças climáticas.
  • Ausência de políticas de consumo responsável.

Os moradores criticam que o município não dá o exemplo: não coleta água da chuva nem utiliza irrigação por gotejamento em espaços verdes.

Reivindicações cidadãs

Um grupo de moradores autoconvocados apresentou uma nota formal ao município exigindo:

  • Transparência na qualidade da água.
  • Controle efetivo sobre o uso industrial.
  • Criação de uma comissão participativa para decidir sobre o recurso.

A crise hídrica de Camarones expõe a tensão entre o consumo domiciliar e o industrial, e a falta de políticas claras para garantir um direito básico. A demanda dos moradores visa romper a inércia e construir uma gestão participativa que assegure água segura e suficiente para todos.

Compartí esta nota

Últimas notícias

Te pueden interesar
Te pueden interesar