Uma gigantesca rede fantasma de mais de 400 metros, junto com restos de cabos, rodas e artes de pesca, foi retirada do fundo marinho do Peñón de Ifach, Espanha, graças à Missão Calpe, uma operação ecológica sem precedentes liderada pela empresa ambiental Gravity Wave.
Durante três dias de trabalho submarino, mergulhadores especializados e equipes técnicas conseguiram recuperar os resíduos acumulados durante décadas na zona conhecida como Brut de Ifach, um enclave natural onde a fauna marinha convivia entre armadilhas invisíveis.
A intervenção, desenvolvida entre 16 e 18 de setembro, marcou um antes e um depois na conservação marinha da costa alicantina, ao combinar esforços privados, científicos e ambientais em uma ação coordenada de alta complexidade.
Graças à precisão da operação, conseguiu-se não só retirar os resíduos sem danificar a pradaria de posidonia oceânica, mas também libertar animais que permaneciam presos na rede.

Ameaça invisível: as redes fantasma e o dano ecológico
As chamadas redes fantasma são um dos resíduos mais destrutivos e persistentes do Mediterrâneo. Formadas por restos de pesca abandonados, podem demorar até 1.000 anos para se degradar. Durante esse tempo, continuam capturando peixes, tartarugas, golfinhos e outras espécies, causando uma morte lenta e invisível sob o mar.
Além disso, seu peso e estrutura destroem habitats essenciais como as pradarias de posidonia oceânica, que atuam como pulmões do Mediterrâneo ao produzir oxigênio, armazenar carbono e servir de refúgio a centenas de espécies. Seu deterioro não só ameaça a biodiversidade, mas também a estabilidade ecológica do litoral.
Segundo a IUCN, mais de 40% dos resíduos plásticos do mar Mediterrâneo provêm de redes e artes de pesca abandonadas. A cada ano, somam-se cerca de 229.000 toneladas de plástico novo, o que torna esta bacia uma das mais contaminadas do planeta.
A rede retirada em Calpe simboliza apenas uma fração de um problema global: toneladas de material sintético continuam presas nos fundos marinhos, liberando microplásticos e alterando os ciclos naturais dos ecossistemas.
Uma operação de precisão e ciência
A operação seguiu três fases cuidadosamente planejadas. Em primeiro lugar, foi balizada a área de trabalho para evitar impactos sobre a vegetação submarina. Depois, mergulhadores e barcos guindaste coordenaram a extração milimétrica da rede, evitando que seu movimento danificasse o ecossistema circundante.
Finalmente, os restos foram transportados para o porto de Calpe, onde Reciclamás se encarregou de sua classificação e gestão sustentável. Cada fragmento foi analisado para medir sua composição e determinar sua possível reutilização dentro de um modelo de economia circular.
A equipe contou com a colaboração científica do IMEDMAR-UCV, que documentou a interação entre os resíduos e as comunidades marinhas. Este acompanhamento permitirá avaliar a regeneração do ecossistema nos próximos meses.

Consequências para o fundo marinho
A presença prolongada de uma rede fantasma altera gravemente os equilíbrios do ecossistema. Sua estrutura emaranhada gera zonas mortas onde a vida não pode se desenvolver, cobre corais e rochas que servem de âncora para organismos e, em sua degradação, libera microplásticos tóxicos que se incorporam à cadeia alimentar.
Além disso, o atrito constante das redes sobre o leito marinho levanta sedimentos, turva a água e dificulta a fotossíntese da posidonia, uma espécie chave na captura de CO₂ e na proteção contra a erosão costeira.
Os cientistas alertam que a acumulação desses resíduos está reduzindo a capacidade do Mediterrâneo para autorregular-se frente à mudança climática. Sua eliminação, portanto, não só salva espécies presas, mas contribui para a resiliência ecológica do mar.
Rumo a um Mediterrâneo regenerado
Missão Calpe é apenas o primeiro passo de um plano de regeneração a longo prazo impulsionado pela Gravity Wave, que busca restaurar o fundo marinho ao estado que apresentava há meio século. As próximas fases do projeto incluirão novas imersões para retirar mais resíduos e promover a recuperação natural das pradarias submarinas.
A empresa, que já retirou mais de 1,2 milhões de quilos de resíduos marinhos, trabalha junto a mais de 7.000 pescadores e 250 marcas comprometidas com a limpeza oceânica. Seu objetivo é demonstrar que a cooperação entre setores pode reverter décadas de dano ambiental.
A operação em Calpe não só liberou o mar de uma armadilha silenciosa, mas também acendeu um sinal de esperança: com ciência, colaboração e vontade, é possível devolver a vida ao Mediterrâneo.



