É possível deixar a cidade?: uma oportunidade que se dissipou devido à pandemia de Covid-19

A pandemia de Covid-19 obrigou o mundo a parar. Na Argentina, o isolamento obrigatório começou em 20 de março de 2020 e alterou de forma abrupta a rotina urbana. Sem movimento nas ruas, surgiram antigas dívidas sociais e ambientais.

O confinamento expôs a precariedade habitacional dos setores populares e a insustentabilidade das grandes cidades. Qual sentido havia em continuar vivendo em uma metrópole se o trabalho, a educação e até os laços podiam ser mantidos de casa?

Milhões começaram a questionar seu modo de vida. As buscas online por mudanças para cidades pequenas ou vilas cresceram com força. Muitos sonhavam com uma vida mais tranquila, mais verde e menos custosa, longe do concreto e do estresse.

O fenômeno não foi apenas percepção: pesquisas e plataformas imobiliárias confirmaram o crescente interesse pelo interior do país. Parecia abrir-se um caminho para repensar o vínculo entre o ambiente, a habitação e o desenvolvimento territorial.

Como consecuencia de la pandemia, cada vez son más las personas que deciden quedarse en las grandes ciudades, a diferencia de los datos recolectados en 2020. Foto: Facundo López Binaghi para la Fundación Tejido Urbano.
Como consecuencia de la pandemia, cada vez son más las personas que deciden quedarse en las grandes ciudades, a diferencia de los datos recolectados en 2020. Foto: Facundo López Binaghi para la Fundación Tejido Urbano.

Uma janela para transformar o habitat

A pandemia evidenciou os limites do modelo urbano concentrado. Conectividade desigual, acesso deficiente a serviços básicos e falta de espaço foram algumas das carências expostas nas grandes urbes.

Nesse contexto, a ideia de desconcentrar a população e revitalizar pequenas vilas ganhou impulso. Experiências como a da Fundação Es Vicis ou os estudos do geógrafo Marcelo Sili demonstraram que outra forma de habitar era possível.

Em localidades como Colonia Belgrano (Santa Fé), o programa “Bienvenido a mi pueblo” conseguiu repovoar com famílias urbanas em busca de uma vida diferente. Tratou-se de propostas planejadas, com foco no enraizamento e na sustentabilidade.

Ao mesmo tempo, o teletrabalho se estabelecia como norma, as plataformas digitais se expandiam e as redes de produção mais locais se fortaleciam. Tudo indicava que poderia se consolidar uma mudança estrutural.

No entanto, não veio o apoio político necessário. A falta de um plano estatal para facilitar o acesso ao solo, promover créditos rurais e melhorar a conectividade deixou essas iniciativas isoladas. A oportunidade foi se desvanecendo.

O que a pandemia mostrou ao meio ambiente

Durante os meses de maior isolamento, o planeta experimentou um respiro incomum. A drástica redução do transporte terrestre, aéreo e marítimo provocou uma queda histórica nas emissões de gases de efeito estufa.

Em grandes cidades como Buenos Aires, foram registradas melhorias na qualidade do ar. Houve redução da concentração de dióxido de nitrogênio, um dos contaminantes urbanos mais comuns, e diminuição do ruído ambiental.

Ecossistemas alterados pela presença humana começaram a mostrar sinais de recuperação. Aves, insetos e mamíferos reapareceram em áreas onde haviam sido deslocados. Em áreas suburbanas, foram observados brotos de vegetação e menos resíduos visíveis.

O confinamento demonstrou que muitos dos impactos ambientais mais severos são resultado direto do modo de vida urbano-industrial. A parada repentina permitiu vislumbrar como um modelo mais descentralizado e respeitoso ao entorno poderia ter efeitos positivos a longo prazo.

Mas esse respiro foi breve. Com o retorno da atividade econômica sem mudanças estruturais, as emissões e a contaminação voltaram aos níveis anteriores. Sem políticas públicas sustentadas, o meio ambiente voltou a ser relegado.

Como consecuencia de la pandemia, cada vez son más las personas que deciden quedarse en las grandes ciudades, a diferencia de los datos recolectados en 2020. Foto: Facundo López Binaghi para la Fundación Tejido Urbano.
Como consecuencia de la pandemia, cada vez son más las personas que deciden quedarse en las grandes ciudades, a diferencia de los datos recolectados en 2020. Foto: Facundo López Binaghi para la Fundación Tejido Urbano.

Da expectativa ao desencanto

Nos anos seguintes, o impulso de deixar a cidade foi diminuindo. A crise econômica, a falta de crédito e as dificuldades estruturais de muitas localidades pequenas começaram a pesar.

As buscas relacionadas a mudanças rurais diminuíram. Problemas como a conectividade deficiente, a falta de serviços de saúde e educação ou o escasso emprego levaram algumas famílias a retornar às cidades.

Enquanto isso, outros países como a Espanha criaram organismos para incentivar a repopulação rural com investimentos em infraestrutura, conectividade e emprego. A Argentina, por sua vez, não conseguiu articular uma estratégia integral.

Apesar disso, algumas experiências continuam. A Fundação Es Vicis ampliou sua rede e a União dos Trabalhadores da Terra impulsiona colônias agroecológicas em diversas províncias. O Censo 2022 mostrou um leve crescimento populacional em certos municípios.

O desejo de mudar de vida não desapareceu. Mas, sem uma política de Estado que articule habitação, emprego e acesso ao solo, a desconcentração continua dependendo de decisões individuais, sem escala ou pro

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