Entre Rios: organizações socioambientais denunciam o fechamento de escolas rurais e o avanço do agronegócio

O governo de Entre Ríos, liderado por Rogelio Frigerio (PRO), anunciou sua intenção de fechar cerca de 300 escolas rurais devido à baixa matrícula.

A Coordinadora Basta es Basta expressou seu repúdio através de um comunicado, qualificando a medida como “um novo golpe às comunidades rurais, já afetadas pelo abandono estatal e pelo avanço do modelo agroexportador que expulsa as famílias do campo”.

“Um único aluno tem direito à educação”: vozes do território

Do Conselho Geral de Educação (CGE), o funcionário Sebastián Benedetti justificou o fechamento por razões de “eficiência pedagógica”, apontando que existem escolas com um a três alunos. No entanto, Elio Kohan, professor e líder da Basta es Basta, argumenta que “a baixa matrícula não invalida o direito à educação”, e que as escolas rurais devem ser mantidas como espaços de encontro e resistência comunitária.

Na região de Basavilbaso, a professora Mariela Leiva alerta que doze escolas estão em risco de fechamento, e denuncia o impacto das fumigações próximas, autorizadas pela Lei de Boas Práticas Agrícolas, que permite a aplicação de agrotóxicos a apenas 15 metros das salas de aula. “Estamos diante de uma violação direta do direito de educar-se em um ambiente saudável”, afirma.

Fumigações, monocultura e despovoamento rural

A Coordinadora Basta es Basta aponta que o despovoamento rural se deve a vários fatores: fumigações em massa, concentração de terras, deslocamento da agricultura familiar e contaminação da água e do solo.

Em áreas como Concordia, o líder Facundo Scattone Moulins descreve um processo de “expulsão baseada em venenos”, onde o uso intensivo de soja e arroz desloca os trabalhadores rurais, invisibilizados pela tecnificação do modelo produtivo.

escuelas rurales
Escolas rurais em Entre Ríos em perigo. Foto: Pablo Piovano

Riscos sanitários e judicialização das fumigações

Os acampamentos sanitários do Instituto de Saúde Socioambiental (Universidade de Rosario) mostraram que viver perto de áreas fumigadas aumenta o risco de câncer. Kohan, de Colonia Avigdor, denuncia que “não são estatísticas, são vizinhos e amigos que adoeceram ou faleceram”.

Em 2018, o Tribunal Superior de Justiça de Entre Ríos estabeleceu distâncias mínimas de 1.000 a 3.000 metros para fumigações perto das escolas, declarando inconstitucional uma resolução que permitia a aplicação de produtos químicos a apenas 50 metros.

Uma lei questionada por ignorar a evidência científica

Apesar da decisão judicial, em 2024 foi aprovada a Lei de Boas Práticas em Fitossanitários, que autoriza fumigações entre 15 e 500 metros das escolas, dependendo do tipo de aplicação.

A lei exige que sejam realizadas em turno contrário ao escolar e sob a supervisão de um consultor fitossanitário, mas ignora os estudos sobre deriva tóxica, segundo denunciam as organizações. “A única boa prática agrícola é a agroecologia”, resume Kohan.

Educação rural: bastião de arraigo e denúncia

“As escolas rurais são muito mais do que salas de aula: são espaços de encontro, denúncia e construção comunitária”, afirma Kohan. Scattone acrescenta que são “o lugar onde mães, professores e trabalhadores se animam a visibilizar o que está acontecendo”.

No entanto, o esvaziamento não é novo: em 2007, o governo provincial vendeu 70 hectares da Escola Agrotécnica N.º 151 para a família Etchevehere, ligada ao agronegócio. Em 2017, foram concedidos mais 29 hectares para obras que nunca foram realizadas.

Com informações da Agência Tierra Viva – Foto da capa: Mariela Leiva

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