Poluição atmosférica chega à Patagônia: encontram microplásticos no ar do Canal Beagle

Um estudo pioneiro realizado por cientistas da UNLP, CONICET e o SMN confirma pela primeira vez a contaminação atmosférica com a presença de fibras plásticas e polímeros na região subantártica, sugerindo um transporte a longa distância.

A contaminação atmosférica com plástico alcançou um dos cantos mais austrais do planeta. Um estudo pioneiro confirmou a existência de microplásticos no ar do Canal Beagle, na província de Tierra del Fuego. Esta descoberta, a primeira do seu tipo na região subantártica, demonstra que nem mesmo os ecossistemas mais remotos estão livres do transporte atmosférico desses poluentes.

A pesquisa foi produto de uma colaboração interdisciplinar entre especialistas do Centro de Investigaciones del Mar y la Atmósfera (CIMA), o Serviço Meteorológico Nacional (SMN) e o Centro de Química Inorgânica (CEQUINOR), este último com dependência da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), o CONICET e a Comissão de Investigações Científicas (CIC).

O trabalho, cujos resultados foram publicados recentemente na revista científica internacional Chemosphere, foi liderado pelos pesquisadores Lucas Rodríguez Pirani e Lorena Picone. Os autores destacaram que, embora a contaminação marinha esteja muito estudada, o transporte aéreo se consolida como um mecanismo chave na dispersão global de plásticos.

O plástico nos oceanos e nos seres humanos.

A metodologia se baseou em uma proposta de Gabriel Silvestri, do CIMA, para utilizar monitores passivos de ar. Esses dispositivos foram instalados estrategicamente na Isla Redonda, uma zona remota dentro do Parque Nacional Tierra del Fuego. Esta localização foi escolhida por ser um ambiente prístino, sem fontes de emissão locais, o que garantia a idoneidade da amostragem de poluentes aerotransportados.

O período de amostragem se estendeu por 18 meses, de outubro de 2021 até março de 2023. As amostras coletadas foram processadas no CEQUINOR em La Plata e, em parte, no Laboratório Nacional de Luz Sincrotron (LNLS) em Campinas, Brasil, por meio de técnicas espectroscópicas.

As análises identificaram um total de 77 partículas recuperadas. Destas, mais de 80% corresponderam a fibras, incluindo poliamida, poliéster, polietileno e algodão semissintético. Notavelmente, também foram detectados pigmentos industriais, como o índigo, comumente usado na indústria têxtil.

As dimensões das fibras, que oscilam entre 100 e 3.000 micrômetros, são consistentes com achados em outros ambientes isolados a nível global. Segundo a equipe de pesquisa, tanto a composição dos plásticos quanto a presença de corantes sugerem um transporte de contaminação atmosférica de longo alcance. A fonte mais provável dessa contaminação são os grandes centros urbanos localizados ao sul da América do Sul.

O Canal Beagle não é apenas um enclave estratégico por sua geografia; também é uma zona que combina uma crescente pressão humana (derivada do turismo, da atividade portuária e industrial) com ventos intensos. Os especialistas alertam que, devido aos ventos predominantes do noroeste, esta região poderia estar funcionando como um corredor direto para o transporte de poluentes, atuando como um portal de entrada para a Península Antártica.

Este estudo sublinha a urgência de ampliar a vigilância ambiental na região. A equipe científica enfatizou que o trabalho estabelece um precedente chave para o monitoramento sistemático de microplásticos no ar do Canal Beagle e outras zonas de alta latitude, insistindo na necessidade de integrar as áreas subantárticas nas redes de observação ambiental global.

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