A Cúpula das Nações Unidas sobre Sistemas Alimentares destaca o papel das Colônias Agroecológicas da UTT na Argentina

A segunda Cúpula das Nações Unidas sobre os Sistemas Alimentares (UNFSS+4), organizada em julho por Etiópia e Itália, tornou-se um espaço chave para refletir sobre a transformação dos sistemas alimentares em um contexto marcado pela aceleração das mudanças climáticas.

Um documento colaborativo para sistemas locais e resilientes

Neste contexto, duas instituições científicas italianas —o Centro de Pesquisas Interdisciplinares sobre Sustentabilidade e Clima de Pisa e o Centro Internacional de Estudos Agronômicos Mediterrâneos Avançados de Bari— coordenaram a elaboração do documento “Rumo ao manual de sistemas alimentares locais e cadeias de abastecimento sustentáveis e resilientes”.

Este trabalho contou com a participação de cientistas e referências de todo o mundo, sob os auspícios da Aliança dos Sistemas Alimentares Locais e Cadeias de Abastecimento Sustentáveis, uma coalizão oficial da Cúpula.

O documento reconhece os sistemas alimentares locais, as cadeias de abastecimento de proximidade e a governança comunitária como pilares fundamentais para avançar em direção a modelos sustentáveis, saudáveis, justos e democráticos.

Críticas ao modelo industrial e benefícios do local

A análise destaca os benefícios dos sistemas locais em relação à agricultura industrial global, apontada por sua incapacidade de garantir o direito à alimentação e por sua contribuição para problemas como:

Em contraste, os sistemas locais fortalecem a resiliência, reduzem impactos ambientais e promovem a soberania alimentar.

20 experiências inspiradoras em 10 países

O documento inclui um levantamento de 20 experiências em 10 países —Itália, Índia, Indonésia, Bélgica, México, Quênia, Tanzânia, França, Tunísia e Argentina— consideradas “práticas inspiradoras” para a formação de sistemas alimentares virtuosos.

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As Colônias Agroecológicas da UTT na Argentina

Entre as experiências destacadas estão as Colônias Agroecológicas impulsionadas pela União dos Trabalhadores da Terra (UTT).

A UTT nasceu em 2010 no Grande La Plata, como resposta de famílias de pequenos agricultores frente aos altos custos de arrendamentos, os baixos preços impostos por intermediários e as más condições de trabalho do modelo hortícola convencional, onde predominam trabalhadores migrantes da comunidade boliviana.

O documento detalha a experiência da Colônia Agroecológica UTT “20 de Abril – Darío Santillán”, localizada em Jáuregui, partido de Luján, que recentemente completou 10 anos de história e foi a primeira do seu tipo na Argentina.

Atualmente, a UTT conta com colônias em San Vicente, Cañuelas, Mercedes, Tapalqué e Lezama, além de Puerto Piray (Misiones), em terras obtidas mediante acordos com municipalidades, sindicatos e cooperativas.

Produção agroecológica e organização comunitária

Na Colônia de Jáuregui vivem e produzem 50 famílias horticultoras que antes sofriam com arrendamentos abusivos e preços baixos. Lá toda a produção é agroecológica, com infraestruturas coletivas como biofábricas e viveiros comunitários que permitem produzir insumos próprios, reduzir custos e romper a dependência de fornecedores comerciais.

A UTT também organiza oficinas de capacitação com referências como o agroecólogo colombiano Jairo Restrepo, e colabora com chefs argentinos para divulgar novas receitas e formas de preparação de seus alimentos.

Benefícios e abertura à comunidade

O documento destaca que as Colônias formam cadeias de abastecimento curtas, onde a produção é comercializada através de canais locais e autogestionados.

  • Cada família trabalha entre 1 e 2 hectares.
  • A distribuição e comercialização são realizadas de forma cooperativa.
  • Não são utilizados insumos químicos e promove-se o reaproveitamento de resíduos.
  • Os alimentos são mais saudáveis e saborosos.

Além disso, a Colônia está aberta ao público: recebe consumidores em seu Armazém comunitário às terças, quintas e sábados, e organiza visitas educativas para estudantes, pesquisadores e público em geral.

A experiência da UTT na Argentina demonstra que os sistemas alimentares locais e agroecológicos são uma alternativa viável e transformadora frente ao modelo industrial.

Sua inclusão no documento da UNFSS+4 reforça a importância de replicar e fortalecer essas práticas para avançar em direção a um futuro alimentar mais justo, resiliente e sustentável.

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