Maldivas: segundo um estudo, as inundações excepcionais podem se repetir a cada três anos até 2050

Um evento de inundação que em 2022 foi considerado excepcional nas Maldivas pode se tornar um fenômeno recorrente a cada dois ou três anos até 2050, segundo um estudo realizado por cientistas do Reino Unido e publicado na revista Cambridge Prisms: Coastal Futures.

Embora a pesquisa tenha se concentrado nas Maldivas, os especialistas alertam que suas conclusões podem se estender a outras ilhas baixas do planeta, que enfrentam riscos semelhantes devido ao aumento do nível do mar.

A vulnerabilidade das ilhas baixas

A análise adverte que o aumento do nível do mar ameaça diretamente a segurança das comunidades insulares. Episódios como o registrado na ilha de Fiyoaree, no atol Huvadhoo, poderiam deixar de ser raros e se tornar parte da nova normalidade climática.

“As ilhas de atol de baixa altitude estão entre os lugares mais vulneráveis do planeta devido ao aumento do nível do mar e, quando se inundam, resulta perturbador e potencialmente perigoso”, afirmou o professor Gerd Masselink, pesquisador da Universidade de Plymouth.

O estudo foi realizado por uma equipe da Universidade de Plymouth e Deltares, instituto de pesquisa aplicada dos Países Baixos, sob a direção de Masselink e do doutor Robert McCall, no âmbito do projeto ARISE, financiado pelo Conselho de Pesquisa em Engenharia e Ciências Físicas do Reino Unido.

O evento de 2022: um ponto de inflexão

A inundação de 2022 foi a pior desde o tsunami de 2004. Uma maré distante no oceano Índico coincidiu com uma maré extraordinariamente alta, provocando inundações em 20 ilhas.

O objetivo principal do estudo foi compreender a frequência e as causas das inundações nas ilhas de atol, assim como projetar como poderiam evoluir nas próximas décadas.

inundações excepcionais
Há preocupação com a frequência das inundações excepcionais e o aumento do nível do mar nas Maldivas.

Modelos e projeções

A equipe realizou observações de campo em Fiyoaree em janeiro e julho de 2022, coletando dados sobre a altura das ondas e a extensão da inundação. Além disso, empregaram o modelo computacional XBeach, desenvolvido por Deltares junto a parceiros internacionais, que permite simular inundações e erosão costeira.

Os resultados foram reveladores:

  • Com o nível atual do mar, apenas o episódio de julho de 2022 provocou inundações.
  • Com o aumento previsto para 2050, nove tempestades históricas mais teriam causado inundações similares.
  • O que hoje ocorre a cada 25 anos poderia acontecer a cada dois ou três anos no futuro.

Adaptação e resiliência

O doutor McCall destacou:

“As nações insulares de atol de baixa altitude vão enfrentar um risco crescente de inundações costeiras à medida que o nível do mar subir”.

O estudo também revela que as ilhas podem elevar-se de forma natural quando as ondas depositam areia e detritos de coral sobre sua superfície, o que poderia aumentar sua resiliência frente a futuras inundações.

Masselink sublinhou:

“Nosso estudo mostrou como as ondas que passam sobre uma ilha podem depositar areia de coral e detritos, elevando sua altura e potencialmente tornando-a mais resistente ao aumento do nível do mar”.

Recomendações urgentes diante das inundações excepcionais

Os cientistas instaram as autoridades das Maldivas e de outros países insulares a aplicar estratégias de adaptação costeira sem demora. Entre as medidas destacam-se:

  • Desenho de soluções de proteção e mitigação.
  • Gestão diferenciada de lagos e rios, que respondem de maneira distinta à dispersão de contaminantes e ao impacto das marés.
  • Monitoramento contínuo e estudos adicionais para compreender a capacidade real de adaptação das ilhas.

A situação das ilhas de atol frente ao aumento do nível do mar é complexa e requer ação decidida. O que antes se considerava um evento excepcional poderia se tornar um fenômeno recorrente, colocando em risco comunidades, infraestrutura e ecossistemas.

O futuro das Maldivas e de outras nações insulares dependerá da capacidade de combinar pesquisa científica, políticas públicas e cooperação internacional.

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