A crise do abandono da conservação em áreas protegidas: um estudo alerta sobre o risco de perder avanços ambientais

Uma pesquisa internacional publicada em Nature Ecology and Evolution revelou a crise do abandono das medidas de conservação em áreas protegidas, um fenômeno que ocorre quando as iniciativas reduzem seu alcance, enfraquecem seu nível de proteção ou até mesmo o revertem completamente com o tempo.

Este processo coloca em risco ecossistemas chave, os benefícios que oferecem às pessoas e as metas de proteção ambiental acordadas a nível global.

Um fenômeno crítico para as metas climáticas

O estudo, liderado por cientistas do Imperial College London, a Universidade de Kent, a Universidade de Sydney e o Instituto Milênio em Socio-Ecologia Costeira (SECOS), adverte que o abandono da conservação é um fenômeno silencioso mas crítico para alcançar as metas de ação climática até 2030, atualmente discutidas na COP30 no Brasil.

O conceito de “abandono da conservação” refere-se a iniciativas públicas, privadas ou comunitárias que deixam de cumprir seus objetivos de proteção. Mesmo quando permanecem inativas ou sem manejo adequado, essas iniciativas costumam continuar sendo consideradas operativas, o que infla artificialmente os avanços globais em conservação.

Contexto internacional: acordos e compromissos

Em resposta à crise de biodiversidade, em 2022 196 países adotaram o Marco Mundial de Diversidade Biológica Kunming-Montreal, comprometendo-se a proteger 30% do planeta até 2030 frente a atividades extrativas como a mineração ou a pesca industrial. Este acordo, junto com o Acordo de Paris, impulsiona novas iniciativas de conservação, embora sua continuidade e efetividade continuem sendo incertas.

“Estamos vendo um impulso global enorme para ampliar a ação de conservação, impulsionado por bilhões de dólares em investimentos públicos e privados. Mas entendemos muito pouco sobre quanto tempo essas medidas perduram ou como assegurar sua continuidade”, explicou o doutor Tom Pienkowski, co-líder do estudo.

abandono da conservação
O abandono da conservação de áreas protegidas preocupa o mundo.

Exemplos regionais: o caso do Chile

O abandono da conservação ocorre em múltiplos contextos e países. No Chile, por exemplo, a atribuição de direitos territoriais a pescadores artesanais buscava promover a extração sustentável e a conservação de ecossistemas costeiros. No entanto, entre 1998 e 2021, 22% dos convênios de uso territorial foram descontinuados por descumprimento de requisitos.

“Essas taxas de abandono revelam lacunas na política pública, mas também destacam oportunidades para fortalecer o acompanhamento às organizações e assegurar impactos ecológicos e sociais duradouros”, afirmou María Ignacia Rivera, pesquisadora do SECOS e co-autora do estudo.

Impactos e riscos globais

O estudo adverte que pelo menos um terço das iniciativas de conservação são abandonadas após apenas alguns anos de implementação, o que compromete os avanços anunciados em eventos internacionais como a COP. Recuperar ecossistemas pode levar décadas, por isso a descontinuidade de projetos representa um grave ponto cego na política e na ciência da conservação.

“Sem documentar esses padrões, não apenas corremos o risco de superestimar as conquistas de conservação, mas também de perder oportunidades para aprender e melhorar a tomada de decisões”, acrescentou Rivera.

Chamado urgente a um sistema global de monitoramento

Os autores fazem um chamado para criar um sistema global de monitoramento do abandono da conservação, acompanhado de:

  • Modelos de financiamento mais sólidos e sustentáveis.
  • Políticas centradas em resultados verificáveis.
  • Ferramentas para rastrear iniciativas comunitárias e estatais de maneira sistemática.

Este chamado ganha especial relevância no contexto político atual, onde alguns países reduziram fundos públicos destinados à conservação ou se retiraram de acordos internacionais, como ocorreu no Brasil e nos Estados Unidos nos últimos anos.

O abandono da conservação é um problema global subestimado que ameaça comprometer as metas climáticas e de biodiversidade até 2030. Documentar esse fenômeno e estudar suas causas permitirá desenhar estratégias mais resilientes, antecipar riscos e assegurar que os esforços de conservação tenham impactos duradouros.

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