Crescem os aterros para bairros privados no Delta do Paraná: a ameaça invisível que destrói os pântanos

Enquanto a fumaça dos incêndios captura a atenção pública a cada ano, outra ameaça silenciosa avança sobre o Delta do Paraná: os aterros.

Esses diques fragmentam os pântanos e anulam sua capacidade como reguladores hídricos.

Assim revela o último relatório da Fundação Pântanos (Wetlands International), que aponta que 14,04% da superfície do delta inferior está fragmentada por essas estruturas.

São 8.938 quilômetros de aterros, o que “equivale a percorrer a Ruta 40 ida e volta ou viajar de Ushuaia a La Quiaca duas vezes”, ilustra o estudo.

Além disso, segundo o levantamento, os aterros no Delta cresceram 5% nos últimos anos.

Isso foi impulsionado pela agricultura, a pecuária intensiva e desenvolvimentos imobiliários que modificam irreversivelmente o ecossistema.

Detalhe de diques de aterros no Delta do Paraná. Fonte: Wetlands International.
Detalhe de diques de aterros no Delta do Paraná. Fonte: Wetlands International.

O “boom imobiliário” que afeta a diversidade dos pântanos

Desde 2020, observa-se uma “terceira onda” de condomínios fechados no Delta do Paraná impulsionada pela pandemia de COVID-19.

Isso gerou um boom imobiliário em áreas de pântanos, onde as pessoas se aproximam para viver para estar perto da natureza, mas sem considerar os impactos ambientais.

O mapeamento 2025 da Fundação Pântanos revelou uma superfície total de 34.618 km², dos quais 56% correspondem ao Delta do Paraná e o restante a bacias tributárias de Buenos Aires.

Foram identificados 2582 km² de diques em Entre Ríos e Buenos Aires, uma superfície equivalente a quase 13 vezes o tamanho da Cidade de Buenos Aires.

Os diques são aterros fechados que rodeiam áreas produtivas e que incluem sistemas de valas, canais e comportas para regular a água.

“Essas infraestruturas afetam a conectividade dos ecossistemas e reduzem sua capacidade de regulação hídrica, aumentando o risco de inundações“, adverte o relatório.

O estudo documentou 596 condomínios fechados em 2024, com 47 novos empreendimentos em relação ao mapeamento de 2018.

pântanos urbanos
A importância dos pântanos.

Não é só o Delta do Paraná: os aterros e condomínios fechados vão além

As urbanizações alcançam 268,69 km² nos tributários de Buenos Aires e 171,76 km² no Delta do Paraná.

Em particular, a Bacia do Rio Luján mostra o maior impacto: 26,8% de sua planície de inundação foi transformada em condomínios fechados.

Além disso, pela primeira vez o levantamento identificou “Condomínios de propriedade horizontal”.

Trata-se de complexos de edifícios completos com piscinas e caminhos internos que geram maior consumo de água e resíduos.

“Os pântanos do Delta do Paraná estão sofrendo uma transformação acelerada que compromete seu funcionamento ecológico”, marca o relatório da Fundação Pântanos.

O caso Colony Park, em San Isidro, exemplifica o dano irreversível: embora a justiça tenha interrompido o desenvolvimento em 2010, o preenchimento do território já estava consumado.

Em Rosário, outro caso é o do Legado Deliot, que resultou em uma condenação de US$ 486.000 por privação do uso do imóvel e $ 66.840.000 por remoção ambiental.

A importância dos pântanos.
A importância dos pântanos.

Os impactos ambientais e sociais da fragmentação do Delta do Paraná

“A verdadeira destruição do delta do Paraná são os aterros. Muito mais que os incêndios”, afirmou ao La Capital o advogado ambientalista Fabián Maggi.

Os aterros no Delta provocam a perda de funções ecossistêmicas críticas:

  • Regular inundações e amortecer cheias
  • Fornecer água disponível para potabilização
  • Manter a biodiversidade do ecossistema
  • Sustentar as atividades dos moradores locais

“Para que continue funcionando como tal, precisamos que a água possa estar presente”, explicou ao La Capital Graciela Klekailo, diretora do Observatório Ambiental da Universidade Nacional de Rosário.

E acrescentou: “Com um aterro, interrompe-se o fluxo natural da água“.

Além disso, a pesquisadora do Conicet Natalia Morandeira apontou ao La Capital que “em muitos casos, os aterros são feitos sem regulamentação nem planejamento, gerando perda de biodiversidade”.

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