Um estudo publicado na revista Nature revela um erro metodológico recorrente na forma como se mede o aumento do nível do mar.
Após revisar centenas de pesquisas e avaliações de risco, os autores concluem que cerca de 90% dos estudos subestimam a altura de referência da água nas costas em cerca de 30 cm.
Este problema é mais frequente no Sul Global, no Pacífico e no sudeste asiático, e menos na Europa e nas costas atlânticas.
A causa do erro
Segundo Philip Minderhoud, professor de hidrogeologia na Universidade de Wageningen (Países Baixos), a discrepância surge porque os métodos de medição do mar e da terra não coincidem no ponto crítico onde ambos se encontram.
- Os modelos terrestres costumam assumir que o “zero” coincide com o nível da água.
- Na realidade, em áreas do Indopacífico esse nível pode estar perto de um metro acima.
- Muitos estudos partem da ideia de um mar calmo, quando a costa está constantemente afetada por ondas, correntes, marés, mudanças de temperatura e fenômenos como El Niño.
Impacto nas projeções
Ajustar a altura de referência implica que, se o nível do mar subir algo mais de um metro até o final do século, as águas poderiam:
- Inundar até 37% mais de superfície.
- Colocar em risco entre 77 e 132 milhões de pessoas adicionais.
Isso complica o planejamento e financiamento de medidas de adaptação às mudanças climáticas.

Testemunhos do Pacífico
A ativista climática Vepaiamele Trief, de 17 anos, descreve como em sua ilha natal, no arquipélago de Vanuatu, a costa recuou visivelmente em poucos anos:
- Praias erodidas.
- Árvores costeiras arrancadas.
- Residências a apenas um metro do mar na maré alta.
Na ilha de Ambae, uma estrada costeira teve que ser desviada para o interior devido ao avanço da água. Até mesmo túmulos ficaram submersos. “Esses estudos não são apenas números, são os meios de vida reais das pessoas”, afirma Trief.
Debate científico
- Ben Strauss (Climate Central) aponta que o erro está na linha de base a partir da qual se calcula a elevação.
- Outros especialistas, como Gonéri Le Cozannet (serviço geológico francês) e Robert Kopp (Universidade Rutgers), acreditam que o problema está identificado e que os planejadores locais costumam conhecer bem seus riscos costeiros.
- Minderhoud insiste que em regiões como o sudeste asiático e os Estados insulares a discrepância é crítica e pode subestimar gravemente a ameaça.
Conexão com outros estudos
A descoberta coincide com um relatório da Unesco que alerta sobre lacunas no conhecimento do oceano como sumidouro de carbono. Os modelos divergem entre 10% e 20% em suas estimativas, o que levanta dúvidas sobre a precisão das projeções climáticas globais.
O estudo destaca que os governos podem estar planejando riscos costeiros com uma visão incompleta da realidade. A subida do nível do mar não é um fenômeno futuro: já está transformando costas, comunidades e modos de vida.



