Um relatório da Universidade Nacional de Río Cuarto (UNRC) adverte que o uso de agroquímicos na Argentina cresceu 2.000% nas últimas décadas, passando de 30 milhões de litros em 1991 para 600 milhões atualmente.
A pesquisa, apresentada pela geóloga e pesquisadora do Conicet Verónica Lutri, foca na “contaminação que não se vê”: o impacto silencioso nos aquíferos da planície chaco-pampeana.
A ameaça invisível da água subterrânea
Lutri, selecionada pelo International Groundwater Resources Assessment Centre (IGRAC) e embaixadora do World Water Film Festival, destaca que a contaminação ocorre mais facilmente em aquíferos pouco profundos e solos arenosos ou de cascalho. Lá, a água da chuva infiltra rapidamente e carrega químicos como a atrazina, detectada a 20 metros de profundidade.
Este herbicida, proibido na União Europeia desde 2004, continua sendo utilizado na Argentina, onde as ervas daninhas resistentes obrigam a aplicação de doses maiores.
Evidência científica e censura
A pesquisadora lembra que existem toneladas de evidência científica sobre os efeitos nocivos de herbicidas como o glifosato e o 2,4-D. Foram detectados pesticidas em sangue, urina, poeira ambiental e sedimentos, mas muitos estudos foram censurados.
O Projeto Sprint, por exemplo, revelou a presença de herbicidas em matrizes biológicas, embora seus resultados não tenham sido divulgados oficialmente.

Consequências para a saúde
O uso intensivo de agroquímicos está associado a graves impactos na saúde humana, especialmente nos chamados “povos fumigados”:
- Câncer e doenças crônicas: maior incidência de câncer cerebral, de mama, próstata, bexiga e cólon.
- Dano genético e reprodutivo: aumento no dano genético e efeitos adversos na reprodução.
- Intoxicações agudas e crônicas: afecções de pele, problemas respiratórios e neurológicos.
- Contaminação persistente: químicos que permanecem no solo e na água, chegando aos alimentos.
Em jovens de comunidades rurais expostas, as taxas de câncer podem ser até 2,5 vezes mais altas do que em populações não fumigadas.
Impacto ambiental e social
A expansão da fronteira agrícola implicou na perda de áreas úmidas e florestas nativas, aumentando a vulnerabilidade dos ecossistemas. Além disso, o modelo extrativista gera desigualdades: enquanto alguns setores se beneficiam da exportação de soja, outros enfrentam contaminação da água, ar e solo.
Alternativas e agroecologia
O especialista em agroecologia da UNRC, Claudio Sarmiento, propõe a necessidade de buscar alternativas naturais como o uso de insetos benéficos e práticas agroecológicas. Lutri concorda que o sistema está saturado e requer uma mudança de paradigma: “Sem água não podemos viver e não se cuida do que não se conhece”.
O relatório da UNRC expõe um modelo químico-dependente que ameaça a saúde pública e os ecossistemas.
A contaminação de aquíferos, a censura de estudos e o aumento de doenças em populações rurais são sinais de alerta. Frente a este cenário, a agroecologia e a regulamentação estrita aparecem como caminhos possíveis para reduzir a dependência de agroquímicos e proteger tanto o ambiente quanto a saúde das comunidades.



