O silêncio e as lápides dos cemitérios escondem mais do que parece. No East Lawn Cemetery de Ithaca, Nova York, um grupo de pesquisadores da Universidade de Cornell descobriu algo extraordinário sob o solo: uma colossal colônia subterrânea de abelhas.
No início de 2023, estimaram que mais de 5,56 milhões de exemplares da espécie Andrena regularis emergiram de uma área de apenas 6.523 metros quadrados.
Esta descoberta surpreende não apenas pela quantidade de abelhas, mas pelo ambiente incomum. Surpreendentemente, uma espécie que não constrói colmeias se concentra em uma área tão pequena. A densidade desta aglomeração é comparável a reunir entre 140 e 270 colmeias de abelhas melíferas no mesmo espaço.
Ao contrário do que imaginamos ao pensar em abelhas, Andrena regularis não vive em colmeias. Cada fêmea escava seu próprio ninho no solo, onde deposita pólen e néctar para suas crias. Aproximadamente 75% das espécies de abelhas seguem este padrão solitário e subterrâneo.
Milhões de abelhas sob um cemitério
O ciclo de vida de Andrena regularis está sincronizado com a chegada da primavera. Estas abelhas passam o inverno sob a terra e emergem quando as primeiras flores de macieira e outros frutíferos começam a aparecer, aproveitando a escassez de concorrentes.
A descoberta começou de maneira inesperada em 2022 quando Rachel Fordyce, técnica de Cornell, detectou a presença massiva de abelhas em seu caminho para o trabalho. Isso levou a equipe a colocar armadilhas para capturar e estudar as abelhas que emergiam do solo entre 30 de março e 16 de maio de 2023.
Essas armadilhas, cobrindo áreas de 0,36 metros quadrados cada uma, permitiram aos pesquisadores coletar 3.251 insetos de 16 espécies diferentes, com Andrena regularis como a mais prevalente. A densidade calculada foi de 852,78 abelhas por metro quadrado, extrapolando para uma população de 5,56 milhões.
Além das abelhas, o estudo documentou a presença de parasitas como Nomada imbricata, uma abelha cuco que deposita ovos em ninhos alheios. Estimou-se a emergência de 77.914 dessas abelhas parasitas, com uma taxa de parasitismo de 1,4%, menor que em estudos similares.
A chave do sucesso desta colônia reside nas características do solo e na ausência de perturbações como pesticidas. O solo arenoso favorece a escavação e a proximidade de Cornell Orchards proporciona um ambiente florido próximo.
Este fenômeno destaca a importância de conservar espaços subterrâneos para polinizadores, muitas vezes ignorados em favor de jardins esteticamente atraentes, mas pouco funcionais. Preservar esses habitats pode ser crucial para manter populações de abelhas que são vitais para a polinização de cultivos e plantas silvestres.
Os resultados desta pesquisa foram publicados em Apidologie, revelando um mundo oculto que subjaz sob nossos pés e que demanda nossa atenção e cuidado.



