Mais de 57 países se comprometem a acelerar a transição para uma economia livre de combustíveis fósseis

A Primeira Conferência sobre a Transição para Abandonar os Combustíveis Fósseis reuniu 57 países e concluiu em 29 de abril em Santa Marta, na costa caribenha da Colômbia, com o debate mundial começando a se deslocar da questão da necessidade de agir para a questão de como deve ser realizada essa transição.
 
Durante os cinco dias de reuniões, os debates se concentraram nos instrumentos, no financiamento e na cooperação internacional necessários para eliminar gradualmente o carvão, o petróleo e o gás sem exacerbar as desigualdades nem prender as economias dependentes dos combustíveis fósseis nesse modelo.
 
Organizada pela Colômbia e pelos Países Baixos, a conferência reuniu representantes tanto do Norte industrializado quanto do Sul global, incluindo pequenos estados insulares do Pacífico. Entre as ausências mais notáveis estavam Estados Unidos, China, Rússia, Japão e Índia, bem como os países produtores de petróleo do Oriente Médio.
 
Também participaram representantes do mundo acadêmico, da sociedade civil, dos povos indígenas, dos sindicatos, dos parlamentares, dos bancos multilaterais e do setor privado.
 
Segundo os coorganizadores, os países participantes representam aproximadamente um terço do PIB mundial.
 
Juntos, buscaram impulsionar a implementação do compromisso adquirido em 2023 na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP28) de abandonar os combustíveis fósseis nos sistemas energéticos.
 
Ao término da reunião na Colômbia, foi anunciada uma segunda conferência para 2027. A reunião preparatória será realizada na Irlanda e a conferência principal em Tuvalu, uma pequena nação insular da Polinésia e um dos países mais vulneráveis ao aumento do nível do mar. Isso dará continuidade ao chamado “Processo de Santa Marta” e transferirá o debate para uma região altamente exposta à crise climática.
 

Um novo espaço para o debate

 
Além da diplomacia, a primeira conferência abriu um espaço que complementa as negociações climáticas tradicionais, concentrando-se menos na elaboração de um texto de consenso e mais na identificação de condições práticas para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
 
Para Daniel Högsta, líder mundial da transição para combustíveis fósseis na WWF, a conferência foi importante porque abordou “o principal motor das crises climática e ambiental” em um contexto de estagnação do progresso formal.
 
Segundo declarou a SciDev.Net, a conferência de Santa Marta buscava “romper este impasse, mudando o foco da questão de se agir ou não para como alcançar uma transição justa, ordenada, equitativa e eficaz”.
 
Um dos anúncios foi a criação do Painel Científico sobre a Transição Energética Global, cujo objetivo é apoiar os países na elaboração de roteiros alinhados com a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Seu valor, aponta Högsta, dependerá de sua capacidade para traduzir a evidência científica em decisões públicas de alto impacto e a curto prazo.
 
“Não há margem para uma maior expansão dos combustíveis fósseis se quisermos manter ao nosso alcance o objetivo de 1,5 °C”, afirmou.
 

Linhas de trabalho

 
Os resultados da conferência descrevem três linhas de trabalho para Tuvalu. A principal consiste no desenvolvimento de roteiros nacionais relacionados com o novo painel científico e a Aliança NDC (uma coalizão mundial que inclui mais de 140 países para ajudar a alcançar o Acordo de Paris e promover o desenvolvimento sustentável).
 
A segunda parte abordará como modificar as normas financeiras que atualmente dificultam a transição, especialmente para os países com um espaço fiscal limitado ou altos níveis de dívida.
 
Por último, o terceiro objetivo será alinhar produtores e consumidores para reduzir as barreiras comerciais criadas pelas proibições à exploração e produção de hidrocarbonetos, bem como reduzir o peso dos combustíveis fósseis nas balanças comerciais, entre outras questões.
 
O documento final adverte que abandonar os combustíveis fósseis requer transformar os sistemas tributários, os mercados de trabalho, os territórios e as infraestruturas, bem como ampliar o acesso à energia e diversificar as economias.
 
Para colocar em prática os objetivos climáticos, Ignacio Arróniz, consultor sênior da Earth Insight — uma organização internacional que trabalha na análise e proteção de territórios contra a expansão extrativa —, declarou a SciDev.Net que as chamadas zonas livres de hidrocarbonetos podem ser uma ferramenta chave.
 
Explica que não se trata necessariamente de um conceito novo, mas sim de um “termo geral” para organizar instrumentos de proteção territorial baseados em critérios ecológicos e sociais dentro dos planos nacionais de transição energética.
 
Segundo Arróniz, o atrativo desses instrumentos reside no fato de que nem sempre requerem a criação de novas instituições: «Podem ser construídos sobre estruturas já existentes». No entanto, adverte que muitas áreas protegidas têm se mostrado insuficientes para conter a extração de hidrocarbonetos.
 
Nesse sentido, afirma: essas zonas devem ser acompanhadas de apoio administrativo e financeiro, mecanismos de conversão de dívida, fundos de comércio justo e um diálogo ativo com as comunidades, especialmente com os povos indígenas, cuja contribuição é fundamental para a criação dessas zonas.
 
A avaliação de Santa Marta inclui elementos nesse sentido. Entre as opções analisadas estão planos para o fechamento de concessões de hidrocarbonetos, zonas livres de combustíveis fósseis, suspensão de novas licenças, gestão de ativos obsoletos e distribuição equitativa dos custos de fechamento, com ênfase na participação comunitária e na criação de empregos alternativos.
 

Além do clima e da economia

 
No entanto, a transição não foi debatida apenas em termos econômicos ou climáticos.
Jessica Newberry Le Vay, pesquisadora de Climate Cares, da Universidade de Oxford e do Imperial College de Londres, declarou a SciDev.Net que a poluição atmosférica, a extração e o transporte de combustíveis fósseis, a perda de biodiversidade e o aumento das temperaturas têm repercussões acumulativas na saúde respiratória, cardiovascular, neurológica e mental.
 
No entanto, sublinha que os custos físicos e mentais da crise climática continuam subestimados nas políticas energéticas.
 
Newberry sustenta que a transição energética “já faz sentido do ponto de vista econômico”, mas que, ao incluir seus benefícios para a saúde, “os argumentos a favor da transição se tornam ainda mais sólidos”.
 
Para ela, a eliminação gradual dos combustíveis fósseis poderia significar “um ar mais limpo, comunidades mais saudáveis e sistemas de saúde mais resilientes”.
 
Fonte: Nicolás Bustamante Hernández/ SciDev.Net
 

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