A poluição do carvão reduz em 5,8% a produção mundial de energia solar: Oxford e UCL alertam sobre um fardo oculto

Um estudo da Universidade de Oxford e do University College London (UCL), publicado na Nature Sustainability, revelou que os aerossóis —pequenas partículas suspensas no ar— reduziram a produção mundial de energia solar em 5,8% em 2023. Isso equivale a 111 TWh de energia perdida, semelhante à geração de 18 usinas de carvão de tamanho médio.

Interação entre carvão e solar

A pesquisa analisou mais de 140.000 instalações solares fotovoltaicas por meio de imagens de satélite e modelos atmosféricos. A descoberta chave: as emissões de carvão dispersam e absorvem a luz solar, reduzindo a quantidade que chega aos painéis.

Entre 2017 e 2023, as novas instalações solares adicionaram uma média de 246,6 TWh anuais, mas as perdas por aerossóis alcançaram 74 TWh, quase um terço desses ganhos. Isso demonstra uma interação pouco reconhecida: as emissões de combustíveis fósseis limitam diretamente o desempenho das energias renováveis.

O caso da China

  • Produção solar: 793,5 TWh em 2023 (41,5% do total mundial).
  • Perdas por aerossóis: redução de 7,7%.
  • Origem: cerca de 29% dessas perdas provêm de usinas de carvão.

Curiosamente, a China mostrou uma melhoria sustentada: entre 2013 e 2023 as perdas diminuíram em 1,4% ao ano, graças a normas mais rígidas e tecnologias de ultra baixas emissões.

Impactos globais

O autor principal, Rui Song, advertiu que a transição energética é menos eficaz do que se supõe:

“As emissões alteram o ambiente radiativo e minam diretamente o desempenho da geração solar”.

Além disso, a poluição do ar não só bloqueia a luz solar, como também altera as nuvens, o que poderia aumentar as perdas reais além do medido.

energia solar
Um estudo revela que a energia solar reduziu sua produção em 5,8% devido aos aerossóis.

Ferramentas de análise

Os pesquisadores combinaram:

  • Imagens de satélite globais.
  • Aprendizado de máquina para mapear instalações solares.
  • Modelos validados de energia solar para calcular perdas.

Jan-Peter Muller destacou que no futuro será possível observar em tempo real, a cada 10 minutos, o impacto de partículas de poeira e fumaça sobre a energia solar graças a satélites geoestacionários.

Implicações políticas

A coautora Chenchen Huang apontou que ignorar essas perdas pode levar a superestimar a produção renovável e desviar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Propôs retirar os subsídios ao carvão e reforçar políticas de controle de emissões.

O professor Myles Allen, fundador do Oxford Net Zero, acrescentou que todos os cenários compatíveis com o Acordo de Paris requerem uma rápida transição longe do carvão, algo que ainda não ocorre porque sua energia continua sendo “surpreendentemente barata” ao ocultar seus custos reais.

O estudo evidencia que a poluição do carvão não só afeta a saúde e o ambiente, mas também reduz a eficiência da energia solar, limitando a transição para um futuro limpo. Para avançar, será necessário integrar políticas mais rígidas de controle de emissões e reconhecer que as energias renováveis não podem desenvolver todo o seu potencial enquanto o carvão continuar dominando.

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