A intensificação dos incêndios florestais nos Estados Unidos está revertendo décadas de avanços na redução da poluição atmosférica.
Um estudo publicado em Science pela Universidade de Iowa adverte que esses eventos aumentaram a presença de ozônio superficial, um poluente que afeta diretamente a saúde humana e a qualidade do ar.
Diferença entre ozônio estratosférico e superficial
- Ozônio estratosférico: localizado nas camadas altas da atmosfera, protege a Terra da radiação ultravioleta.
- Ozônio superficial: se forma ao nível do solo pela reação de VOCs (compostos orgânicos voláteis) e NOx (óxidos de nitrogênio) sob a luz solar. É prejudicial para os pulmões, agrava doenças respiratórias e afeta cultivos e vegetação.
- Retrocesso em políticas ambientais
A Lei do Ar Limpo e outras regulamentações haviam conseguido reduzir os níveis de NOx no leste do país. No entanto, desde 2015 os incêndios florestais mudaram a tendência:
- Entre 2003 e 2015: queda sustentada de ozônio superficial.
- Entre 2015 e 2024: aumento significativo, gerando condições de ar insalubre em amplas áreas.
Impacto na saúde pública
O estudo revela um aumento de 46% em mortes prematuras relacionadas ao ozônio proveniente de incêndios após 2013.
- Estima-se 318 mortes adicionais por ano vinculadas a esse fenômeno.
- Em 2023, foram registradas 7.974 mortes prematuras atribuíveis ao smog.
- Entre 2022 e 2024, 43 milhões de pessoas estiveram expostas a ar que não atende aos padrões de qualidade.
Transporte de poluentes
O ozônio superficial não afeta apenas as áreas próximas aos incêndios: pode viajar centenas ou milhares de quilômetros, impactando regiões distantes.
Isso complica a gestão de emergências, já que os estados devem demonstrar à EPA que a poluição provém de incêndios distantes, um procedimento cada vez menos eficaz.

Metodologia do estudo
Os pesquisadores utilizaram técnicas de deep learning para combinar dados de 1.000 estações terrestres e registros de satélite, criando um mapa de alta resolução (1 km²) da concentração diária de ozônio entre 2003 e 2024.
Com essas informações, calcularam a incidência de mortes prematuras considerando expectativa de vida, exposição média e densidade populacional.
Comparação com outros poluentes
O impacto do ozônio superficial supera o do carbono negro, outro poluente vinculado a doenças respiratórias e cardíacas.
Segundo Jun Wang, “o efeito do ozônio superficial é sempre maior, embora existam diferenças regionais”.
Mudança climática e riscos futuros
A intensificação dos incêndios, associada à mudança climática, poderia agravar ainda mais a situação. A temporada de incêndios de 2023 no Canadá elevou os níveis de ozônio acima dos padrões federais para 148 milhões de americanos, equivalente a 44% da população.
O estudo adverte que as políticas de redução de emissões devem se adaptar ao impacto crescente dos incêndios florestais.
A poluição por ozônio superficial representa um risco grave para a saúde pública e a agricultura, e exige estratégias que abordem tanto as fontes locais quanto as remotas de poluição.



