As rotas do guanaco na Patagônia: migrações sazonais e memória cultural contra as possíveis ameaças

Cada inverno, quando a neve cobre os planaltos de Santa Cruz, os guanacos iniciam uma jornada em direção a áreas mais baixas para sobreviver ao frio. Esses movimentos sazonais não apenas garantem sua sobrevivência, mas também sustentam o equilíbrio ecológico da estepe patagônica.

O novo é que estudos recentes mostram que as rotas migratórias não dependem de um instinto genético, mas de um aprendizado coletivo. Os indivíduos jovens observam e aprendem com os adultos experientes, gerando uma memória cultural migratória que é transmitida de geração em geração.

Ciência e monitoramento

As populações de Parque Patagonia e Monte León são as únicas na América do Sul monitoradas com tecnologia satelital. Os dados revelam que nem todos os guanacos migram, mesmo em ambientes semelhantes, o que reforça a hipótese de que a migração é um comportamento aprendido.

Essa abordagem, já documentada em grandes herbívoros da América do Norte, introduz a ideia de que a migração é parte de uma cultura animal, dependente da transmissão social.

Ameaças crescentes

Um dos principais riscos são os alambrados que atravessam a estepe. No inverno, quando a neve dificulta os movimentos, essas barreiras se tornam armadilhas mortais.

  • Um estudo do Conicet em Río Negro mostrou que pelo menos 6,4% da população morre presa nas cercas.
  • Se for extrapolado para toda a Patagônia, isso implica em milhares de animais por ano.

A mortalidade não afeta apenas os indivíduos, mas ameaça a transmissão cultural das rotas migratórias. Se as migrações forem interrompidas, a memória que as sustenta pode desaparecer.

migrações de guanacos
Os guanacos mostram um comportamento migratório aprendido surpreendente. 

Soluções propostas

Os cientistas propõem modificações simples nas cercas, como retirar o fio superior ou criar espaços de passagem, o que reduz significativamente a mortalidade.

Essas medidas são essenciais para preservar tanto a sobrevivência dos guanacos quanto a continuidade de suas rotas invisíveis.

Impacto ecológico

As migrações cumprem funções essenciais:

  • Dispersão de sementes.
  • Redistribuição de nutrientes.
  • Conexão de ecossistemas no espaço e no tempo.

A perda dessas funções móveis implicaria uma homogeneização ambiental, alterando o funcionamento de toda a estepe patagônica.

Os guanacos são mais do que grandes herbívoros da Patagônia: são portadores de uma memória cultural migratória que sustenta a dinâmica dos ecossistemas. Proteger suas rotas invisíveis é proteger a biodiversidade e a resiliência da estepe frente às mudanças climáticas e às ameaças humanas.

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