Corrientes sob a lupa: suspeitas de turismo cinegético e contrabando de fauna desencadeiam alerta internacional

A organização Freeland International, especializada em tráfico de fauna, advertiu em janeiro de 2025 sobre viagens de turismo cinegético organizadas por caçadores e influenciadores estrangeiros para Sauce (Corrientes).

Segundo a denúncia, esses grupos garantem ter a “colaboração” de um inspetor local de vida selvagem para exportar animais caçados como “troféus” para países como Brasil, Estados Unidos ou Espanha, apesar de a localidade não ter autorizações oficiais para fazê-lo.

Investigação judicial

A Unidade Fiscal Especializada em Criminalidade Organizada (Ufeco) abriu uma investigação após detectar possíveis funcionários envolvidos no suposto esquema de contrabando. O foco está em Diego Miguel Ruiz Díaz, inspetor ad honorem de flora e fauna da Direção Provincial de Recursos Naturais, apontado por várias fontes como ator-chave no circuito.

Ruiz Díaz, com antecedentes como caçador furtivo e comerciante de carne de cervo vermelho sem autorização, acumula entre 2022 e 2025 nove processos judiciais por abuso de autoridade, furto, lesões leves e associação ilícita. Embora tenha sido absolvido em um caso, o restante ainda está em andamento.

Circuito de permissões e galhadas

Em 2021, Ruiz Díaz confiscou 582 quilos de galhadas de cervo axis com destino à China. O processo revelou que parte provinha de caça furtiva. Embora a promotoria tenha denunciado irregularidades na venda das galhadas, o inspetor foi absolvido por falta de provas.

A lei provincial permite dar aos produtos apreendidos “o destino que mais convier”, e os fundos deveriam ingressar no Fundo para proteção e conservação da fauna. No entanto, não há rastreabilidade clara sobre os ganhos.

Fontes locais consultadas pelo portal La Nación afirmam que as permissões de caça em Sauce dependem da relação com o inspetor. “Se você quer caçar e não tem campo, fala com ele e ele facilita o processo”, descreveu um advogado rural.

turismo cinegético
O turismo cinegético em Sauce está sob a lupa.

Testemunhos e disputas

  • Fabio Ávalos, dono do coto La Alemana, denunciou assédio e extorsão: Ruiz Díaz teria pedido entre 20% e 30% dos lucros.
  • Outros cotos vinculados ao inspetor promovem nas redes sociais a caça de cervo axis com influenciadores estrangeiros, mostrando armas com silenciadores e miras noturnas, proibidas na Argentina.
  • Fontes do setor descrevem o inspetor como “abusivo” e “extorsivo”, enquanto ele assegura que as acusações vêm de caçadores furtivos que buscam desacreditá-lo.

Contexto provincial

O negócio das galhadas e da caça esportiva tornou-se uma fonte de renda relevante em Corrientes. No entanto, a falta de controles e as denúncias de corrupção colocam em risco a conservação da fauna e a credibilidade institucional.

A Direção de Recursos Naturais, liderada por Agustín Portela, defendeu o inspetor, argumentando que ele possui conhecimento empírico sobre as anomalias do setor. O advogado da direção, Diego Diratchette, minimizou as denúncias e as qualificou como uma conspiração de caçadores insatisfeitos.

O caso de Sauce expõe a tensão entre o turismo cinegético, a falta de transparência na gestão de permissões e o risco de contrabando de fauna. A investigação judicial e as denúncias de organizações internacionais colocam Corrientes no centro de um debate sobre a necessidade de reforçar controles, garantir rastreabilidade e proteger a biodiversidade frente a interesses econômicos e redes ilegais.

*Com informações de La Nación

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