A Argentina está a caminho de descumprir seus compromissos climáticos

Um monitoramento colaborativo sobre 115 objetivos oficiais adverte que 9 de cada 10 compromissos climáticos do país já foram descumpridos, não registram avanços verificáveis ou são implementados a um ritmo insuficiente. O relatório é apresentado enquanto a Subsecretaria de Meio Ambiente da Nação está vaga. 

88,7%

dos 115 compromissos climáticos monitorados estão fora de uma trajetória de cumprimento (102 de 115 objetivos).

60

objetivos, 52,2%, já estão em zona de descumprimento confirmado: 27 impossíveis de cumprir no prazo, 32 sem nenhum avanço verificável e 1 eliminado sem ser cumprido.

91,3%

dos objetivos com prazo vencido entre 2023 e 2025 não foram cumpridos em tempo e forma (21 de 23).

A Argentina assumiu numerosos compromissos climáticos em leis, planos nacionais, estratégias e acordos internacionais, mas seu nível de implementação continua sendo insuficiente frente aos prazos previstos. Assim adverte um monitoramento cidadão coordenado por Sustentabilidad Sin Fronteras junto com 26 organizações aliadas, que analisou 115 objetivos oficiais e concluiu que 88,7% está fora de uma trajetória de cumprimento.

O levantamento faz parte da segunda atualização do Observatório Nacional de Ação Climática e compara a evolução dos compromissos em relação à primeira medição, realizada em agosto de 2025.

Apenas 13 objetivos, 11,3%, estão em trajetória real de cumprimento, por terem sido cumpridos, cumpridos fora do prazo ou mostrar avanços suficientes para estimar que poderão ser alcançados. Os 102 restantes ficam fora dessa trajetória.

A comparação entre atualizações confirma uma tendência negativa. Dos 100 objetivos presentes em ambas as medições, 36 mudaram de categoria entre agosto de 2025 e julho de 2026. No total, 15 melhoraram e 21 passaram para uma categoria mais desfavorável ou permitiram confirmar uma situação negativa que em 2025 não podia ser avaliada por falta de informação. Para cada dois objetivos que melhoram, quase três pioram. A trajetória negativa cresceu de 39 para 49 objetivos em um ano.

Os cumprimentos não ocorrem onde há maior impacto climático

Os 13 objetivos em trajetória positiva concentram-se principalmente no eixo de Prestação de Contas e Transparência, vinculado à publicação do Sistema Nacional de Informação sobre Mudança Climática, o Sistema de Monitoramento do Plano Nacional de Adaptação e Mitigação à Mudança Climática, o Relatório Anual Ambiental e o acompanhamento do compromisso de apresentação do segundo Relatório Bienal de Transparência.

São avanços institucionais relevantes para a governança climática, mas insuficientes para modificar a situação dos setores com maior impacto direto em emissões, adaptação e resiliência. Setores como florestas, transporte, resíduos, emissões e biodiversidade não têm nenhum objetivo cumprido.

O histórico de prazos vencidos antecipa riscos para 2030

Dos 23 compromissos com data limite entre 2023 e 2025, apenas 2 foram cumpridos no prazo previsto e outros 2 foram cumpridos fora do prazo. Os 19 restantes não foram cumpridos ou ainda não contam com verificação definitiva. Se o critério é o cumprimento em tempo e forma, 21 de 23 objetivos, 91,3%, não alcançaram esse padrão.

O dado é especialmente relevante porque dois terços do universo monitorado têm como horizonte o ano 2030. Dos 115 objetivos avaliados, 76 vencem esse ano. Dentro desse grupo, 28 não registram avanços, 26 contam com um avanço leve, 7 já foram classificados como impossíveis de cumprir no prazo estabelecido e apenas 3 alcançaram a categoria cumprido. Faltam quatro anos para essa data e a grande maioria desses compromissos não está em trajetória de cumprimento.

O relatório é apresentado em um contexto de fraqueza institucional para a política ambiental nacional. No fechamento da atualização, a Subsecretaria de Meio Ambiente da Nação estava vaga, após a renúncia de Fernando Jorge Brom em 30 de junho de 2026. Esta situação se soma a um período de desvalorização da área ambiental nacional e de redução de capacidades institucionais para implementar e monitorar a política climática.

A atualização também incorpora pela primeira vez um olhar sobre os Planos de Resposta à Mudança Climática provinciais, exigidos pela Lei 27.520. No fechamento do relatório, apenas três jurisdições contavam com planos validados: Jujuy, La Pampa e Misiones. 

O número global é preocupante, mas o mais relevante é a direção. Não estamos diante de uma foto estática de descumprimento, mas sim diante de um sistema que se afasta cada vez mais de suas metas enquanto o tempo se encurta. O problema não é a falta de compromissos climáticos, mas sim a falta de implementação sustentada, de informação pública e de capacidade institucional para cumpri-los. 

Por: Mariano Villares, fundador de Sustentabilidad Sin Fronteras

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