Uma análise genética de exemplares de museu permitiu identificar três variedades inéditas de anfíbios de sapos vivíparos, ao contrário da maioria, dão à luz crias completamente formadas e omitem a fase aquática de girino.
Uma equipe internacional de cientistas confirmou a descoberta de três novas espécies de sapos vivíparos na Tanzânia, uma descoberta que redefine a taxonomia dos anfíbios nas montanhas do Arco Oriental.
A pesquisa, liderada por Christian Thrane, utilizou técnicas avançadas de museômica para demonstrar que o que antes era considerado uma única população de anuros é, na verdade, um complexo diverso de espécies geneticamente distintas que evoluíram isoladas por barreiras geográficas.
O estudo centrou-se no gênero Nectophrynoides, um grupo de sapos arbóreos que historicamente havia desconcertado os biólogos. Durante décadas, acreditou-se que existia uma espécie predominante, o Nectophrynoides viviparus, distribuída amplamente desde as Terras Altas do Sul até diversas cadeias montanhosas como Udzungwa e Mahenge.
No entanto, a nova evidência publicada na revista Vertebrate Zoology desmente essa homogeneidade: as populações estão separadas e desenvolveram características únicas.
Uma raridade biológica: parto em vez de ovos de sapos vivíparos
O que torna excepcionalmente valiosa esta descoberta é a estratégia reprodutiva desses animais. Enquanto a imensa maioria das quase 8.000 espécies de rãs e sapos do mundo depositam ovos que eclodem em larvas aquáticas (girinos), esses anfíbios tanzanianos realizam fecundação interna.
As fêmeas de sapos vivíparos gestam a descendência em seus ovidutos e dão à luz sapos diminutos mas completamente desenvolvidos, prontos para a vida terrestre.
Mark D. Scherz, curador de herpetologia do Museu de História Natural da Dinamarca e coautor do trabalho, destaca que este fenômeno rompe com o paradigma clássico da metamorfose biológica. Segundo H. Christoph Liedtke, pesquisador do CSIC da Espanha, a viviparidade é uma “exceção evolutiva” presente em menos de 1% dos anuros conhecidos, o que eleva a importância científica dessas novas espécies restritas a zonas específicas das montanhas tanzanianas.
A ciência por trás da descoberta: DNA de um século atrás
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores não apenas realizaram trabalho de campo, mas também recorreram à “museômica”. Esta técnica permitiu extrair e sequenciar DNA de espécimes preservados há mais de 100 anos em museus europeus, incluindo os coletados por Gustav Tornier, que em 1905 documentou pela primeira vez este estranho comportamento reprodutivo.
Alice Petzold, da Universidade de Potsdam, destacou que a análise deste material histórico foi crucial para mapear corretamente as populações antigas e distingui-las das atuais, proporcionando a confiança necessária para descrever formalmente as novas espécies.
Alerta para a conservação das florestas
Apesar do entusiasmo científico, o futuro desses sapos vivíparos na Tanzânia é precário. As Montanhas do Arco Oriental são um ponto quente de biodiversidade, mas sofrem uma pressão constante devido ao desmatamento, à atividade mineradora e aos efeitos das mudanças climáticas.
Especialistas como Michele Menegon e John V. Lyakurwa, da Universidade de Dar es Salaam, alertam que a fragmentação das florestas tropicais ameaça diretamente a sobrevivência desses animais endêmicos. Com antecedentes alarmantes no gênero, como a extinção em estado selvagem do Nectophrynoides asperginis, a proteção desses ecossistemas torna-se urgente para evitar que essas raridades evolutivas desapareçam pouco depois de terem sido classificadas corretamente.





