O tráfico ilegal de fauna marinha movimenta bilhões de dólares todos os anos e representa uma ameaça direta para espécies em perigo de extinção. Entre os itens mais traficados estão as barbatanas de tubarão, os cavalos-marinhos e os pepinos-do-mar, que costumam ser ocultados em bagagens ou pacotes e cruzar fronteiras sem serem detectados.
A doutora Vanessa Pirotta, da Universidade Macquarie (Austrália), autora principal do estudo publicado em Frontiers in Ocean Sustainability, declarou: “O comércio de vida selvagem é cruel e antiético. Aproveitamos este Dia Mundial dos Oceanos para dar visibilidade a este problema”.
Inteligência artificial como ferramenta de detecção
Para enfrentar essa problemática, cientistas da Universidade Macquarie desenvolveram um algoritmo de inteligência artificial capaz de detectar amostras dessas espécies com uma precisão de 92%.
O sistema reutiliza scanners de tomografia computadorizada (CT) de raios X já presentes em aeroportos, que geram imagens 3D do conteúdo das malas. Através de uma rede neural treinada com centenas de escaneamentos, o algoritmo pode identificar automaticamente itens suspeitos e marcar a bagagem para inspeção.
Como o algoritmo foi treinado
Os pesquisadores realizaram 298 escaneamentos de 20 amostras de pepino-do-mar, 30 de cavalo-marinho e 18 de barbatana de tubarão, muitas provenientes de apreensões reais.
- Simularam-se táticas de contrabando, como envolver as amostras em roupas, latas ou brinquedos.
- Imagens foram adicionadas a malas escaneadas sem mercadoria ilegal, através da técnica de Projeção de Imagem de Ameaça.
- O algoritmo foi testado com um subconjunto de imagens nunca vistas anteriormente.
Os resultados foram contundentes:
- 95% de precisão na detecção de barbatanas de tubarão.
- 96% em cavalos-marinhos.
- 86% em pepinos-do-mar. A taxa de falsos positivos foi de 13%, com variações conforme a espécie.
Limitações e desafios
Embora a precisão seja alta, o sistema não é uma solução definitiva:
- Os falsos positivos requerem controles manuais.
- Nem todos os aeroportos possuem scanners CT 3D, pois são caros; muitos ainda dependem de scanners 2D.
- O algoritmo deve ser complementado com a detecção humana e o uso de cães farejadores.
“A IA não é a solução definitiva para a detecção, nem um substituto para a detecção humana”, concluiu Pirotta.

Implicações globais
A aplicação de inteligência artificial na luta contra o tráfico de fauna marinha abre novas possibilidades para:
- Intercepção de envios ilegais.
- Corte de rotas comerciais que abastecem mercados de consumo humano, medicinal e ornamental.
- Proteção de espécies vulneráveis, reduzindo a pressão sobre populações em equilíbrio precário.
- Prevenção de espécies invasoras, evitando que animais traficados vivos escapem e alterem ecossistemas.
O desenvolvimento deste algoritmo representa um avanço significativo na proteção da biodiversidade marinha. Embora não substitua os métodos tradicionais, oferece uma ferramenta poderosa para reforçar os controles em aeroportos e fronteiras.
Em um contexto onde o tráfico ilegal ameaça a sobrevivência de espécies inteiras, a combinação de tecnologia, cooperação internacional e conscientização cidadã será chave para enfrentar este desafio global.



