Ouvir o oceano: cientistas desenvolvem nova tecnologia para identificar peixes de recifes por áudio

Uma equipe internacional de cientistas liderada pelas universidades de Cornell e Aalto desenvolveu uma ferramenta inovadora que permite identificar peixes de recife por meio de som e vídeo, transformando o monitoramento acústico em uma estratégia chave para a proteção de ecossistemas de recifes de coral.

Paisagens sonoras submarinas: uma biodiversidade ainda oculta

Mais de 700 espécies de peixes do Caribe podem emitir sons únicos, até então desconhecidos.

O projeto, impulsionado pela FishEye Collaborative, coletou mais de 20 horas de gravação em Curaçao, conseguindo atribuir sons específicos a 46 espécies de peixes de recife, muitas das quais não eram conhecidas por emitir vocalizações anteriormente.

“A diversidade acústica dos recifes rivaliza com a das selvas tropicais”, afirma o Dr. Marc Dantzker, diretor executivo da FishEye Collaborative.

Tecnologia sem mergulhadores: monitoramento autônomo e contínuo

O sistema pode ser instalado no ambiente natural e registrar sons por longos períodos.

“Capturamos comportamentos e vocalizações nunca antes observados”, explica o Dr. Aaron Rice, autor principal do estudo.

A ferramenta combina áudio espacial e vídeo 360°, permitindo localizar a fonte sonora e sobrepor à imagem, facilitando identificar qual peixe produz cada som.

peces de arrecifes
Esta nova tecnologia permite identificar novas espécies de peixes de recifes

Aplicações para a conservação marinha

A acústica se torna um indicador de saúde e resiliência dos recifes.

Até agora, os sons dos peixes eram ofuscados por espécies mais barulhentas como golfinhos, baleias e camarões. Esta tecnologia permite descobrir as “vozes ocultas” do mar, oferecendo dados valiosos para avaliar a biodiversidade e monitorar mudanças nos ecossistemas.

“Estamos longe de ter um ‘Merlin’ para os oceanos, mas os sons já são úteis para a ciência”, destaca o Dr. Rice.

Recifes em risco: urgência de monitorar e restaurar

A mudança climática, a perda de habitat e a atividade humana ameaçam a biodiversidade marinha.

“Os recifes estão se deteriorando rapidamente, afetando a segurança alimentar e os meios de vida de quase um bilhão de pessoas”, adverte o Dr. Dantzker.

O investimento em restauração é significativo, mas requer eficiência e monitoramento rigoroso. Esta ferramenta permite avaliar como os recifes respondem a fatores de estresse e às intervenções de conservação.

Ciência cidadã e futuro tecnológico

Inspirados em aplicativos como o Merlin Bird ID, os pesquisadores sonham com uma versão marinha.

Enquanto a identificação acústica de aves já é acessível ao público, criar um aplicativo semelhante para peixes ainda é um desafio.

No entanto, os avanços atuais aproximam essa possibilidade, e oferecem benefícios imediatos para cientistas, gestores e comunidades costeiras.

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